Um estudo da Anti-Corruption Data Collective apontou taxas incomuns de acerto em apostas militares e de defesa na Polymarket. O alerta reacende a discussão sobre informação privilegiada, concentração de lucros e limites para mercados de previsão on-chain.
A Polymarket voltou ao centro do debate sobre integridade de mercados de previsão após um estudo apontar que apostas improváveis em eventos militares e de defesa têm vencido em frequência muito acima do esperado. Segundo relatório da Anti-Corruption Data Collective, citado pelo CoinDesk, longshots nessa categoria chegaram a acertar 51,8% das vezes, contra uma base de 14% nos mercados políticos em geral.
O dado importa porque esses contratos não medem apenas opinião pública ou leitura de notícias abertas. Em temas como operações militares, política externa e decisões de governo, a informação costuma ficar concentrada em poucos grupos. Se uma parte dos traders opera com conhecimento não público, o mercado deixa de funcionar como “sabedoria da multidão” e passa a refletir uma vantagem informacional de poucos participantes.
Estudo analisou 435 mil mercados da Polymarket
O levantamento da ACDC analisou todos os contratos liquidados na Polymarket entre janeiro de 2021 e meados de março de 2026. Ao todo, foram mais de 435 mil mercados e US$ 54,4 bilhões em volume acumulado. A conclusão é que os contratos ligados a defesa e política externa parecem mais vulneráveis a assimetrias de informação do que outras categorias.
O relatório ganhou peso por chegar logo após um caso envolvendo um militar das Forças Especiais dos EUA, acusado de lucrar com uma aposta relacionada a uma operação na Venezuela. Para os pesquisadores, esse episódio pode não ser um ponto fora da curva, mas um sinal visível de um problema mais amplo.
A discussão também conversa com uma tendência que o CriptoBR já vinha acompanhando: os mercados de previsão estão crescendo rápido, mas ainda enfrentam dúvidas regulatórias e operacionais. Recentemente, a Polymarket tentou retomar espaço nos EUA com aval da CFTC, enquanto concorrentes e produtos parecidos avançam em meio a uma corrida por liquidez.
Lucros concentrados levantam nova pressão regulatória
O estudo se soma a outras pesquisas recentes que apontam concentração relevante de poder nesses mercados. Um paper da London Business School e de Yale, também citado pelo CoinDesk, estimou que cerca de 3% dos traders respondem por boa parte da formação de preços na Polymarket. Já análise da Solidus Labs indicou que menos de 1% das carteiras capturam cerca de metade dos lucros.
Na prática, isso desafia uma narrativa comum no setor: a de que mercados de previsão são sempre uma leitura eficiente da probabilidade coletiva. Eles podem ser úteis, mas, em contratos sensíveis, a vantagem pode estar menos na análise pública e mais no acesso a informações específicas antes do restante do mercado.
O caso também chega em um momento em que novas plataformas tentam disputar esse espaço. Como o CriptoBR reportou, a Hyperliquid prepara um rival da Polymarket com taxa zero, o que pode aumentar a competição e a criação de contratos mais granulares. No Brasil, o tema já entrou no radar com o avanço de discussões sobre Polymarket, Kalshi e a atuação de reguladores locais.
O que pode mudar para usuários
A ACDC sugeriu medidas como verificação de identidade para apostadores, restrições a mercados decididos por grupos muito pequenos, limites para contratos excessivamente específicos e pagamentos condicionais quando houver suspeita de manipulação ou informação privilegiada.
Para o usuário comum, o ponto central é simples: odds em plataformas como a Polymarket não são uma previsão neutra por definição. Elas podem refletir liquidez, concentração de capital, assimetria de informação e até a presença de participantes com acesso melhor ao fato apostado. Isso não invalida o modelo, mas exige mais cautela, principalmente em mercados políticos, militares ou de baixa transparência.
A Polymarket afirma ter equipes de vigilância de mercado e cooperação com autoridades em casos sensíveis. Ainda assim, o novo relatório aumenta a pressão para que o setor prove que consegue crescer sem virar um ambiente em que poucos traders informados extraem vantagem sistemática dos demais.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





