Carteiras ligadas ao governo dos EUA moveram cerca de US$ 288 milhões em Bitcoin e Ether apreendidos para a Coinbase Prime. A operação reacende dúvidas sobre a reserva estratégica de Bitcoin do país e sobre uma possível preparação para custódia, reorganização interna ou venda futura.
Carteiras associadas ao governo dos Estados Unidos transferiram cerca de US$ 288 milhões em Bitcoin e Ether apreendidos para a Coinbase Prime, segundo dados on-chain citados pelo CoinDesk. O movimento ocorreu na segunda-feira (13) e chamou atenção porque parte dos ativos está ligada a casos criminais já conhecidos, incluindo a extinta exchange BTC-e e o caso Ryan Farace, conhecido como “xanaxman”.
A transferência não prova venda imediata. Coinbase Prime também é usada como infraestrutura institucional de custódia e negociação, e o governo pode apenas estar reorganizando ativos sob controle federal. Ainda assim, a chegada de moedas apreendidas a uma plataforma de corretagem costuma ser acompanhada de perto por traders, especialmente quando envolve Bitcoin estatal em um momento de maior sensibilidade macro.
O que foi movimentado
De acordo com os dados reportados, uma carteira ligada ao caso Farace enviou 2.875 BTC, avaliados em aproximadamente US$ 178 milhões, para um novo endereço. Poucos minutos depois, o valor foi encaminhado para uma carteira de depósito da Coinbase Prime. Outra carteira associada à BTC-e moveu 925,512 BTC, cerca de US$ 57 milhões, seguindo padrão semelhante: saída de endereço de apreensão, passagem por intermediário e depósito final na plataforma institucional.
No caso do Ether, o trajeto foi mais direto. Uma carteira conectada a Brian Krewson, citado em um esquema de lavagem de dinheiro de US$ 54 milhões, enviou 30.007 ETH, avaliados em cerca de US$ 53,09 milhões, diretamente para um endereço de depósito da Coinbase Prime. Analistas da Galaxy Research também apontaram que os movimentos de Bitcoin estavam relacionados a moedas apreendidas nos casos Farace e BTC-e.
O tamanho da movimentação é relevante, mas precisa ser colocado em perspectiva. Segundo a reportagem, os criptoativos sob controle do governo americano somam cerca de US$ 20,65 bilhões. Ou seja, a remessa para a Coinbase Prime representa uma fração pequena do estoque total, embora grande o suficiente para influenciar a leitura de curto prazo do mercado.
Por que o mercado está atento
O ponto mais sensível é a política anunciada em março de 2025 pelo presidente Donald Trump, que criou uma Reserva Estratégica de Bitcoin e determinou que BTC apreendido pelo governo fosse mantido, e não vendido. A movimentação para a Coinbase Prime, portanto, levanta uma pergunta simples: os ativos estão indo para custódia organizada ou para uma possível venda futura?
Essa dúvida aparece em um momento em que o Bitcoin já negocia sob pressão de fatores macroeconômicos. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a disputa interna em torno da reserva de Bitcoin dos EUA, a execução prática dessa política ainda depende de decisões entre órgãos federais, Tesouro, Justiça e estruturas de custódia.
Também há um paralelo com o comportamento de outros governos e tesourarias públicas. Em junho, o CriptoBR noticiou que o Butão moveu 250 BTC e reduziu sua reserva estatal, mostrando como grandes carteiras soberanas podem virar sinal relevante para o mercado, mesmo quando a intenção final não é imediatamente clara.
Custódia, venda ou gestão de inventário?
A interpretação mais conservadora é que o governo esteja apenas centralizando custódia. A Coinbase Prime atende clientes institucionais e já foi usada por órgãos americanos em processos ligados a ativos digitais apreendidos. Nesse cenário, a transferência seria uma etapa administrativa para gestão, segregação ou auditoria dos fundos.
A leitura mais agressiva é que os depósitos poderiam preparar uma liquidação, possivelmente via operações de balcão para reduzir impacto no livro de ofertas. Essa hipótese ganha força porque, historicamente, envios de grandes carteiras para exchanges costumam ser interpretados como aumento de oferta potencial. Mas, no caso de carteiras governamentais, o processo pode envolver prazos legais, decisões judiciais e regras internas que não aparecem diretamente na blockchain.
Para investidores, o principal sinal não é apenas o valor transferido, mas o destino e a sequência dos movimentos. Se novas remessas saírem de carteiras de apreensão para Coinbase Prime, o mercado tende a acompanhar mais de perto a possibilidade de venda. Se os fundos permanecerem parados em custódia, a tese de reorganização administrativa fica mais forte.
O episódio também reforça a importância dos dados on-chain para acompanhar decisões estatais envolvendo cripto. Em um mercado que já monitora fluxos de ETFs, tesourarias corporativas e saldos de exchanges, carteiras governamentais viraram mais um termômetro. Como mostramos em fluxos recentes de ETFs de Bitcoin e Ether, pequenas mudanças na percepção de oferta e demanda podem alterar rapidamente o humor do mercado.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





