Procuradores ligados ao sistema judicial da China defenderam regras mais duras para casos de lavagem de dinheiro com cripto, incluindo a possibilidade de presumir intenção criminosa quando houver uso de mixers e moedas de privacidade. A proposta não tem força de lei imediata, mas indica como Pequim pode endurecer a produção de provas on-chain e a gestão de ativos apreendidos.
A China voltou a elevar o tom contra o uso de criptomoedas em esquemas de lavagem de dinheiro. Um artigo publicado no Procuratorate Daily, jornal ligado à Suprema Procuradoria Popular do país, defendeu que o uso de mixers, moedas de privacidade e outros mecanismos de ocultação possa ser tratado como indício de intenção criminosa em investigações financeiras.
Segundo a Decrypt, o texto foi assinado por procuradores distritais da província de Hunan e por um professor universitário. A publicação não muda a lei chinesa por si só, mas costuma funcionar como sinal relevante do debate interno entre autoridades responsáveis por investigação e acusação.
O que está sendo proposto
A ideia central é ampliar o peso jurídico de evidências on-chain em casos de lavagem. Na prática, procuradores defendem que transações feitas por meio de ferramentas de ofuscação, como coin mixers, ou por moedas focadas em privacidade possam gerar uma presunção de dolo, salvo se o investigado apresentar uma justificativa razoável.
A proposta também inclui a criação de regras mais claras para coleta e validação de provas em exploradores públicos de blockchain, além de uma plataforma estatal para administrar e vender criptoativos apreendidos. A crypto.news destacou que o pacote ainda menciona cooperação transfronteiriça para recuperação de ativos.
O movimento dialoga com uma tendência global: governos querem usar a transparência das blockchains públicas contra redes criminosas, mas ao mesmo tempo pressionam ferramentas usadas também por usuários legítimos que buscam privacidade financeira. No CriptoBR, esse ponto já apareceu em casos como o cerco do DOJ à Huione em investigação bilionária de lavagem cripto e no debate sobre o papel de corretoras sem KYC citado em alertas anteriores do FBI.
Por que isso importa para o mercado
Mesmo com a negociação e a mineração de cripto proibidas na China desde 2021, ativos digitais seguem aparecendo em investigações de fraude, evasão de capital e lavagem. O texto citado pela imprensa internacional afirma que mais de 3 mil pessoas foram acusadas em 2024 por crimes de lavagem relacionados a cripto, número que ajuda a explicar por que o tema voltou ao radar das autoridades.
Para exchanges, balcões OTC, analistas forenses e protocolos de privacidade, o risco é uma leitura regulatória cada vez menos neutra sobre ferramentas de anonimização. Um mixer pode ser usado para proteger dados financeiros, mas também pode dificultar o rastreamento de valores roubados ou desviados. É exatamente essa ambiguidade que a proposta chinesa tenta reduzir a favor da acusação.
O ponto sensível é que uma presunção desse tipo pode inverter parte do ônus prático da defesa: em vez de o Estado demonstrar apenas a origem criminosa dos fundos, o usuário de ferramentas de privacidade teria de explicar por que recorreu a esses mecanismos. Isso tende a aumentar o custo de compliance para intermediários e pode reduzir a liquidez de ativos associados à privacidade em mercados asiáticos.
China aperta o cerco, mas não muda tudo de uma vez
Não há, por enquanto, uma nova lei nacional aprovada. O artigo representa uma recomendação e um termômetro político, não uma regra automaticamente aplicável. Ainda assim, na China, publicações em veículos oficiais do sistema judicial podem antecipar prioridades de fiscalização e orientar a forma como procuradores constroem casos.
O endurecimento também vem em paralelo a outras frentes de controle financeiro na Ásia. Recentemente, o CriptoBR mostrou como a China passou de proibições amplas para um foco mais específico em stablecoins e tokenização, enquanto países vizinhos aumentam o escrutínio sobre fluxos de USDT, OTCs e pagamentos informais.
Para o leitor, a mensagem é direta: privacidade on-chain está se tornando um campo de disputa regulatória. Ferramentas que escondem origem, destino ou histórico de transações devem continuar sob pressão, principalmente quando autoridades conseguem vincular esses recursos a golpes, evasão ou financiamento ilícito.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





