Donald Trump voltou a pressionar o Senado dos EUA para aprovar o CLARITY Act antes do recesso de agosto. O projeto pode redefinir a divisão de poder entre SEC e CFTC, mas ainda enfrenta disputas sobre DeFi, stablecoins e conflitos de interesse.
O presidente Donald Trump aumentou a pressão sobre o Senado dos Estados Unidos para aprovar o CLARITY Act, projeto considerado central para definir as regras do mercado cripto americano. A movimentação ocorre nesta segunda-feira (13), no retorno dos senadores a Washington, com uma janela de poucas semanas antes do recesso de agosto.
Segundo a Bitcoin Magazine, Trump publicou no Truth Social que o Senado deveria aprovar a proposta e vinculou a disputa à liderança dos EUA em ativos digitais e inteligência artificial. A Casa Branca também tem defendido uma agenda pró-inovação para cripto, afirmando em seu relatório de ativos digitais que empreendedores do setor precisam de clareza sobre as políticas que afetam suas operações.
O que o CLARITY Act muda
O CLARITY Act busca separar com mais nitidez a atuação da Securities and Exchange Commission (SEC) e da Commodity Futures Trading Commission (CFTC). Em linhas gerais, a proposta daria à CFTC jurisdição sobre mercados à vista de “commodities digitais”, enquanto a SEC seguiria responsável por ativos enquadrados como contratos de investimento.
Esse desenho é importante porque uma parte relevante da indústria cripto dos EUA reclama há anos de operar em uma zona cinzenta regulatória. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a possível nova versão do CLARITY Act, o texto voltou ao centro das negociações justamente porque o prazo político está apertado.
A proposta já passou pela Câmara em 2025 e avançou no Comitê Bancário do Senado em maio por 15 votos a 9, com apoio de dois democratas. Ainda assim, a votação em plenário exige uma coalizão mais ampla, especialmente porque o Senado precisa administrar prioridades concorrentes antes do recesso.
DeFi, stablecoins e ética travam acordo
O avanço não depende apenas de vontade política. O CoinDesk apontou que três frentes seguem pesando nas negociações: preocupações democratas no Comitê de Agricultura, objeções de autoridades policiais sobre proteções para desenvolvedores de DeFi e a disputa bancária em torno de recompensas pagas sobre stablecoins.
Esse último ponto conversa com uma tensão já conhecida no setor. Bancos tradicionais argumentam que stablecoins com rendimento podem competir com depósitos bancários sem as mesmas exigências prudenciais. O tema já apareceu em outras frentes regulatórias, como na cobertura do CriptoBR sobre como o CLARITY Act pode criar uma nova onda de yield cripto.
A seção ligada a DeFi também é sensível. Parte do mercado quer garantir que desenvolvedores de software não sejam tratados automaticamente como transmissores de dinheiro. Já grupos de aplicação da lei temem que uma proteção ampla demais dificulte investigações contra lavagem de dinheiro, evasão de sanções e golpes on-chain.
Do lado democrata, o senador Chris Van Hollen criticou a versão discutida no Comitê Bancário e defendeu emendas para impedir que autoridades públicas, incluindo presidente, vice-presidente, parlamentares e familiares, tenham vínculos financeiros com emissores ou plataformas de ativos digitais. Para os críticos, essa é uma lacuna relevante diante da exposição de Trump e de sua família ao setor cripto.
Por que o mercado acompanha de perto
Para empresas cripto, a aprovação do CLARITY Act poderia reduzir o risco de enforcement regulatório caso a caso e abrir espaço para produtos mais previsíveis nos EUA. Para investidores, a leitura é parecida: regras mais claras podem melhorar o apetite institucional, embora não eliminem riscos de mercado, custódia ou governança.
O tema também se conecta à corrida global por estruturas regulatórias. Enquanto os EUA tentam destravar sua lei de mercado, outras jurisdições avançam em stablecoins, tokenização e supervisão de exchanges. No Brasil, por exemplo, o Banco Central já iniciou uma agenda mais concreta, como detalhado na matéria do CriptoBR sobre a transição regulatória cripto até 2027.
A pressão da Casa Branca, portanto, não garante aprovação. Mas transforma julho em um mês decisivo para a criptoeconomia americana. Se o Senado deixar a votação para depois do recesso, o calendário eleitoral tende a reduzir o espaço para um acordo bipartidário antes das eleições de meio de mandato.
Na prática, o mercado acompanha dois sinais: se a nova versão do texto consegue acomodar as divergências sobre DeFi e stablecoins, e se a negociação política resolve a disputa ética sem perder votos suficientes para inviabilizar o plenário.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





