O Banco da Tailândia e a SEC local iniciaram auditorias sobre transações de alto volume com stablecoins, com foco em USDT. A medida faz parte de uma ofensiva contra lavagem de dinheiro, apostas online e fluxos financeiros fora dos canais bancários tradicionais.
O Banco da Tailândia colocou transações de alto volume com stablecoins no centro de uma nova ofensiva contra dinheiro ilícito. Segundo o jornal local The Nation, o banco central e a Comissão de Valores Mobiliários da Tailândia, a SEC local, passaram a usar ferramentas de análise de dados para auditar operações consideradas anormais, com foco específico no Tether (USDT).
A medida importa porque mostra mais um regulador asiático tratando stablecoins não apenas como instrumento de pagamento ou negociação, mas como infraestrutura sensível de supervisão financeira. Em vez de mirar todo o mercado cripto de forma genérica, a autoridade está concentrando a fiscalização em fluxos grandes, padrões de ocultação de beneficiários e possíveis rotas para burlar sistemas formais de remessa.
USDT entra no radar da fiscalização tailandesa
De acordo com a cobertura do The Block, o governador do Banco da Tailândia, Vitai Ratanakorn, afirmou que a atuação ocorre em conjunto com a SEC do país. A análise preliminar teria identificado transações desenhadas para esconder propriedade ou contornar canais tradicionais de transferência de recursos.
O USDT aparece no centro da apuração por ser uma das stablecoins mais líquidas do mercado global e por permitir liquidação quase instantânea entre plataformas. Esse mesmo atributo, que torna o ativo útil para traders, remessas e operações internacionais, também aumenta o interesse de reguladores quando há suspeita de lavagem de dinheiro ou evasão de controles locais.
A ação tailandesa vem em um momento em que stablecoins já ocupam espaço crescente no mercado. O CriptoBR mostrou recentemente que a BNB Chain lidera stablecoins com 15 milhões de endereços ativos, enquanto o setor também atravessa uma fase de ajuste: as stablecoins perderam US$ 10 bilhões em valor de mercado desde maio, embora analistas vejam a queda como contida.
Ofensiva também mira dinheiro em espécie e ouro
A fiscalização não se limita às criptomoedas. O pacote tailandês prevê exigência de comprovação de origem para depósitos em dinheiro iguais ou superiores a 5 milhões de baht, cerca de US$ 150 mil, além de monitoramento sobre trocas incomuns de cédulas e operações com ouro físico.
Segundo o The Nation, bancos comerciais já haviam sido obrigados a exigir justificativa para saques elevados em espécie. Após essa camada inicial de controle, os saques físicos de alto valor teriam caído 35% no país. Agora, a autoridade busca fechar o outro lado do circuito, exigindo declaração de origem também para grandes depósitos.
O mercado de ouro também entrou no radar porque reguladores identificaram padrões de compra digital pela manhã e retirada física no mesmo dia, comportamento considerado compatível com tentativa de movimentar recursos fora de trilhas bancárias convencionais. Bancos passaram a reportar esse tipo de anomalia ao órgão antilavagem local.
Regulação asiática fica mais granular
O caso reforça uma tendência: a regulação cripto na Ásia está ficando mais granular. Países que antes discutiam stablecoins em termos amplos agora olham para pares específicos, volumes de negociação, beneficiários finais e integração com bancos, corretoras e canais de pagamento.
Para usuários comuns, a mudança não significa uma proibição automática do USDT na Tailândia. O ponto central é que grandes fluxos e operações fora do padrão tendem a enfrentar mais exigência documental. Para exchanges e provedores de serviços, o recado é mais direto: controles de KYC, monitoramento transacional e cooperação com autoridades passam a ser parte inevitável da operação.
A Tailândia não está isolada nesse movimento. Como o CriptoBR noticiou, Taiwan aprovou sua primeira lei para cripto e stablecoins, enquanto outros mercados asiáticos discutem regras para emissão, custódia e uso de tokens pareados a moedas fiduciárias.
O efeito prático é que stablecoins continuam ganhando relevância como ponte entre finanças tradicionais e cripto, mas essa relevância vem acompanhada de maior escrutínio. Quanto mais esses ativos entram em pagamentos, remessas e liquidez global, maior tende a ser a pressão para que grandes movimentações deixem rastros claros para reguladores.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





