O Departamento de Justiça dos EUA apreendeu uma conta de computação em nuvem usada por subsidiárias da Huione Group, acusadas de dar suporte à lavagem de recursos de golpes com criptomoedas. A ação mira a infraestrutura por trás da Huione Guarantee, mercado no Telegram ligado a fraudes de investimento, roubo de dados e centros de scam no Sudeste Asiático.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou a apreensão de uma conta de computação em nuvem usada por subsidiárias da Huione Group, conglomerado do Camboja acusado de ajudar criminosos a movimentar e ocultar recursos de golpes com criptomoedas. Segundo o DOJ, a infraestrutura hospedava sistemas de backend ligados à Huione Guarantee, também conhecida como Haowang Guarantee, um marketplace operado em canais do Telegram.
A ofensiva importa porque desloca o foco da repressão: em vez de mirar apenas carteiras, exchanges ou operadores individuais, autoridades americanas passaram a atacar a infraestrutura que permite que mercados ilícitos continuem funcionando. O caso reforça a pressão sobre serviços que misturam escrow, pagamentos, dados roubados e conversão de cripto para o sistema bancário tradicional.
O que foi apreendido
De acordo com o comunicado do DOJ, a conta em nuvem era usada como parte da base tecnológica que permitia a transferência, movimentação e ocultação de recursos obtidos em fraudes. O órgão afirma que parte relevante desses valores teria origem em centros de golpes no Sudeste Asiático, incluindo esquemas de romance, investimento falso e outros crimes cibernéticos.
O caso tem conexão direta com o mercado cripto porque a Huione Guarantee teria oferecido serviços de escrow para transações criminosas, inclusive para lavagem de criptomoedas. Nas alegações descritas pelo governo americano, os canais ligados ao marketplace reuniam ofertas de dados pessoais roubados, informações de cartões de crédito, ferramentas para roubo habilitado por malware e serviços associados a tráfico humano.
O FBI e a IRS Criminal Investigation participam da investigação. O DOJ também citou apoio de equipes de inteligência da Chainalysis, da Elliptic e do Google CyberCrime Investigation Team. A presença dessas empresas mostra como a análise on-chain continua sendo um instrumento central para conectar endereços, fluxos e entidades que operam fora da camada visível das corretoras.
Huione já estava no radar dos EUA
A Huione não entrou no radar agora. O FinCEN, braço do Tesouro americano contra crimes financeiros, já havia classificado a Huione Group como preocupação primária de lavagem de dinheiro sob a seção 311 do USA Patriot Act. Na prática, essa medida buscava cortar o acesso do grupo ao sistema financeiro dos EUA por seu suposto papel em golpes de investimento cripto, ciberataques e fluxos ligados à Coreia do Norte.
A nova ação também veio acompanhada de proposta do FinCEN para incluir a H-Pay Service PLC na definição do grupo Huione. Isso sugere que os reguladores tentam acompanhar reestruturações, sucessores e entidades afiliadas usadas para manter canais de pagamento ativos mesmo após sanções ou bloqueios.
A Elliptic, que disse ter fornecido inteligência usada pelo FBI, afirma que a Huione Guarantee foi exposta originalmente em 2024 como um mercado baseado no Telegram voltado a fraudadores online. A empresa estima que a operação associada à Huione tenha recebido dezenas de bilhões de dólares em transações cripto ao longo dos anos, com serviços ligados a golpes conhecidos como “pig butchering”, lavagem de dinheiro e venda de ferramentas para fraude.
Impacto para exchanges e usuários
Para exchanges e provedores de pagamento, o recado é claro: autoridades estão olhando além do endereço individual suspeito. Infraestrutura, cloud, escrow, canais sociais e entidades de fachada entram no mesmo mapa de risco quando sustentam fluxos ilícitos. Isso tende a aumentar a cobrança por triagem de carteiras, monitoramento contínuo e resposta rápida a entidades sancionadas.
O movimento conversa com outras operações recentes contra crime digital. O CriptoBR já mostrou como a China endureceu o combate a centros de golpes em Myanmar, uma frente que também envolve redes transnacionais no Sudeste Asiático. Também há paralelo com casos de lavagem no sistema financeiro tradicional, como o episódio em que um funcionário do Bank of America admitiu participação em esquema ligado a fraude bilionária.
Para o usuário comum, o ponto prático é que golpes de investimento com cripto raramente terminam na primeira carteira de depósito. O dinheiro costuma passar por camadas de intermediários, mercados informais, serviços de conversão e canais de comunicação fechados. Por isso, promessas de retorno garantido, “consultores” que migram a conversa para Telegram e pressão para depósitos rápidos continuam sendo sinais de alerta.
A ação também reforça uma tendência vista em investigações envolvendo hackers e lavadores profissionais. Como ocorreu no caso da eXch, que encerrou operações após suspeitas de ligação com hackers norte-coreanos e lavagem de dinheiro, a pressão regulatória cresce quando um serviço passa a ser visto como peça recorrente em fluxos ilícitos.
O que observar agora
O desdobramento mais importante será medir se a apreensão derruba apenas parte operacional da Huione ou se abre caminho para novas ações contra afiliadas, contas, domínios e provedores relacionados. Também será relevante observar se outras jurisdições acompanham os EUA, já que o caso envolve Camboja, canais no Telegram, vítimas americanas e fluxos globais em blockchain.
O DOJ afirmou que a ação faz parte da Operation Riptide, campanha do FBI contra atores, infraestrutura e redes financeiras de cybercrime. O órgão também citou dados do IC3 indicando mais de US$ 7,2 bilhões em perdas relatadas por vítimas americanas de fraude de investimento com criptomoedas em 2025. Esse número ajuda a explicar por que a repressão deixou de ser pontual e passou a mirar a cadeia de suporte por trás dos golpes.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





