Michael Saylor e Adam Back criticaram a BIP-110, proposta que tenta limitar inscrições e outros dados não monetários no Bitcoin. O debate importa porque envolve censura, neutralidade da rede e risco de fragmentação, embora o apoio de mineradores ainda esteja muito baixo.
Michael Saylor, presidente executivo da Strategy, e Adam Back, CEO da Blockstream, voltaram a criticar a BIP-110, uma proposta de mudança temporária no Bitcoin para restringir transações com dados não monetários, como inscrições do tipo Ordinals. Segundo o Cointelegraph, ambos afirmam que a tentativa de “limpar” a rede pode criar um problema maior do que o uso que pretende combater.
A discussão ganhou força em um momento sensível para o Bitcoin: as inscrições caíram muito em relação ao pico de 2023, mas a disputa sobre filtros, OP_RETURN e uso do espaço em bloco continua dividindo desenvolvedores, mineradores e empresas do setor. Para o leitor, o ponto central é simples: a BIP-110 não é apenas uma discussão sobre NFTs no Bitcoin, e sim sobre quem pode definir o que é uma transação “legítima”.
https://x.com/saylor/status/2075981482154209664
O que a BIP-110 quer mudar
A BIP-110 foi apresentada em dezembro de 2025 pelo desenvolvedor pseudônimo Dathon Ohm, com apoio de Luke Dashjr, fundador do Ocean. A proposta busca impor, por um período de um ano, limites mais duros ao uso de dados arbitrários em transações, sob o argumento de preservar o Bitcoin como sistema de dinheiro eletrônico ponto a ponto.
Na prática, o alvo são transações associadas a inscrições, colecionáveis e outros formatos que ocupam espaço em bloco sem serem pagamentos tradicionais. Defensores da proposta dizem que esse tipo de uso encarece a rede, aumenta o tamanho do conjunto de dados que os nós precisam processar e pode desviar o Bitcoin de sua função monetária.
O lado contrário vê outro risco. Saylor afirmou no X que existem “110 coisas” mais perigosas ao Bitcoin do que spam e que a BIP-110 poderia invalidar transações comuns. Back foi além: segundo o Cointelegraph, ele descreveu a proposta como uma tentativa de policiar o comportamento de outros usuários, algo incompatível com a neutralidade e a resistência à censura que sustentam o Bitcoin.
Apoio ainda é baixo
Apesar do barulho, a proposta está longe de ser ativada. O Cointelegraph aponta que a BIP-110 precisaria de 55% de suporte de nós validando blocos dentro de um período do Bitcoin. No período mais recente citado pela publicação, apenas 1% dos blocos sinalizava apoio.
Esse detalhe muda o tom da notícia. A BIP-110 ainda parece mais uma disputa política e filosófica dentro do ecossistema do que uma mudança prestes a entrar em produção. Mesmo assim, o debate importa porque qualquer tentativa de alterar regras de consenso pode reabrir feridas parecidas com as Blocksize Wars, quando a comunidade discutiu se deveria aumentar o tamanho dos blocos para escalar a rede.
O contexto também ajuda a calibrar a urgência. Dados citados pelo Cointelegraph indicam que as inscrições Ordinals ficaram abaixo de 10 mil por dia no último mês, muito abaixo do pico de mais de 400 mil inscrições diárias registrado em agosto de 2023. Ou seja: a proposta chega quando o problema operacional parece menos intenso do que no auge do ciclo de Ordinals.
Por que isso afeta investidores
Para investidores, a BIP-110 não muda o preço do Bitcoin de forma direta no curto prazo, mas toca em um tema que sustenta o valuation de longo prazo do ativo: previsibilidade das regras. Quanto mais o mercado percebe risco de conflito social, fork ou interferência em transações válidas, maior tende a ser o prêmio de incerteza sobre a rede.
Esse debate aparece em paralelo a outras pressões sobre o mercado. O CriptoBR mostrou recentemente que o Bitcoin ficou 307 dias entre US$ 60 mil e US$ 70 mil, refletindo um mercado travado entre compradores de longo prazo e vendedores em níveis relevantes. Também há uma rotação institucional em curso, com ETFs de Bitcoin e Ether voltando a captar após oito semanas.
No lado técnico, a discussão se conecta ao aumento de usos não tradicionais da rede. Como o CriptoBR reportou na análise sobre microtransações chegando a 80% da rede Bitcoin, a demanda por espaço em bloco deixou de ser apenas uma questão de pagamentos simples. Hoje, envolve filtros, relays, inscrições, dados, taxas e a própria visão de longo prazo para a camada base.
O outro lado do debate
Os defensores da BIP-110 argumentam que a mudança seria temporária e desenhada para evitar impactos sobre usos conhecidos. Eles também afirmam que reduzir dados arbitrários poderia aliviar custos para operadores de nós e proteger a rede contra abuso. O problema é que, em Bitcoin, qualquer mudança que filtre transações precisa convencer uma base ampla de participantes, não apenas um grupo de desenvolvedores ou empresas.
Por enquanto, a baixa sinalização de suporte sugere que a proposta enfrenta resistência significativa. Mas a reação de nomes como Saylor e Back mostra que o tema não deve desaparecer. Mesmo com Ordinals mais fracos, o mercado segue atento a qualquer iniciativa que pareça transformar a camada base do Bitcoin em um espaço com curadoria de uso.
Em termos práticos, a mensagem para o investidor é cautela: a BIP-110 ainda não parece perto de virar regra, mas a discussão revela uma tensão permanente entre eficiência, liberdade de uso e imutabilidade social no Bitcoin.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





