O Reino Unido publicou seu primeiro relatório para escalar a tokenização de mercados financeiros de atacado e mobilizou uma força-tarefa com 54 instituições. BlackRock, Goldman Sachs, JPMorgan, Morgan Stanley, HSBC, UBS, Ripple, Coinbase e Circle aparecem no grupo que deve testar casos reais, começando por operações de repo tokenizadas.
O Reino Unido colocou alguns dos maiores nomes de Wall Street e do setor cripto na mesma mesa para transformar a tokenização em infraestrutura de mercado. Um relatório publicado nesta segunda-feira (13) pelo HM Treasury, por meio do Wholesale Digital Markets Champion Chris Woolard, estabelece um roteiro para levar ativos financeiros de atacado para trilhos digitais e cria uma força-tarefa com 54 instituições.
O grupo inclui BlackRock, Goldman Sachs, JPMorgan, Morgan Stanley, HSBC, UBS, Barclays, Coinbase, Circle, Ripple e outras empresas de mercado financeiro, infraestrutura e ativos digitais. A prioridade inicial será desenvolver um caso de uso ponta a ponta para repo tokenizado, operação em que instituições usam títulos como garantia para obter liquidez de curto prazo.
A iniciativa é relevante porque desloca a tokenização de ativos do campo dos pilotos isolados para uma agenda coordenada entre governo, bancos, gestoras, bolsas, provedores de infraestrutura e empresas cripto. Em vez de apenas testar tokens em ambientes fechados, o objetivo declarado é construir mercados interoperáveis, com liquidação, garantias, padrões legais e resiliência operacional.
Do piloto à escala
Segundo a página oficial do governo britânico, o primeiro relatório do Wholesale Digital Markets Champion apresenta um roteiro de entrega para tokenização, nove grupos de ação da força-tarefa e áreas de política prioritárias. A City of London Corporation, que apoia o trabalho, afirma que Chris Woolard entregou o relatório inaugural ao Chanceler e convocou 54 empresas para executar o programa.
Na prática, o Reino Unido tenta acelerar a digitalização de partes centrais do mercado financeiro, como emissão, negociação, custódia, garantias e liquidação. O relatório fala em mercados financeiros de atacado, ou seja, a infraestrutura usada por bancos, gestoras, corretoras e grandes instituições, não um aplicativo de varejo para compra de cripto.
Esse detalhe importa. O mercado de repo é uma engrenagem essencial de liquidez no sistema financeiro tradicional. Se a tokenização conseguir reduzir fricções nesse segmento, ela pode ganhar um caso de uso institucional mais forte do que narrativas genéricas sobre “colocar tudo on-chain”.
O movimento também se conecta a uma tendência que o CriptoBR já vem acompanhando. Em junho, o Reino Unido traçou uma rota para tokenização e liquidação 24/7, enquanto a FCA abriu caminho para fundos tokenizados no país. Agora, a agenda ganha uma força-tarefa mais ampla e nomes de peso para testar a execução.
Wall Street e cripto no mesmo tabuleiro
A presença de instituições como BlackRock, JPMorgan, Goldman Sachs e Morgan Stanley reforça que a tokenização deixou de ser uma aposta periférica para os grandes bancos. Ao mesmo tempo, a entrada de empresas como Ripple, Coinbase e Circle mostra que o Reino Unido quer aproximar infraestrutura cripto de mercados regulados, especialmente em áreas como liquidação, dinheiro tokenizado, interoperabilidade e identidade de ativos.
O CoinDesk destacou que o grupo trabalhará durante o próximo ano em casos de uso reais nos mercados financeiros britânicos. O relatório também cita o potencial de crescimento do mercado de ativos tokenizados, com estimativas de consultorias como a BCG apontando para dezenas de trilhões de dólares em valor até 2035.
Há competição internacional clara nessa agenda. Estados Unidos, União Europeia, Singapura, Emirados Árabes e Suíça também buscam criar regras e infraestrutura para ativos tokenizados. O Reino Unido tenta se posicionar como centro financeiro capaz de unir tradição regulatória, mercado de capitais profundo e adoção de tecnologia de registro distribuído.
Nos EUA, iniciativas privadas também avançam. A DTCC levou projetos de tokenização de Wall Street à Stellar, enquanto gestoras e bancos continuam testando fundos, treasuries e instrumentos de liquidez em trilhos digitais. O diferencial britânico, neste caso, é a coordenação explícita entre governo, reguladores e indústria.
O que pode mudar para o mercado
Para investidores cripto, o ponto central não é esperar que bancos passem a usar redes públicas imediatamente. O impacto mais provável é gradual: padrões de tokenização mais claros, maior demanda por infraestrutura de custódia, pontes reguladas entre dinheiro tokenizado e ativos tradicionais, além de mais espaço para stablecoins e redes permissionadas em processos institucionais.
Ao mesmo tempo, o avanço não elimina riscos. Mercados tokenizados precisam resolver governança, privacidade, liquidez secundária, tratamento fiscal, segurança operacional e compatibilidade com sistemas legados. Um erro em infraestrutura de atacado tem consequências bem diferentes de um experimento pequeno em DeFi.
Por isso, o relatório britânico é menos uma promessa de adoção imediata e mais um sinal de direção. Quando bancos globais, gestoras, empresas cripto e o Tesouro do Reino Unido passam a trabalhar em um roteiro comum, a tokenização deixa de ser apenas uma tese de crescimento e começa a virar disputa por infraestrutura financeira.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





