A AUSTRAC iniciou duas campanhas de supervisão sobre 63 empresas cripto na Austrália, incluindo operadores de cripto-para-dinheiro e exchanges locais. A ofensiva acompanha novas regras de combate à lavagem de dinheiro e mostra como a fiscalização global está avançando para além das corretoras tradicionais.
A agência de inteligência financeira da Austrália, a AUSTRAC, iniciou duas campanhas direcionadas de supervisão sobre o setor de ativos virtuais do país, mirando 63 empresas cripto em meio à entrada em vigor de novas regras antilavagem de dinheiro. A medida coloca operadores de cripto-para-dinheiro, exchanges e outros prestadores de serviços sob uma lupa regulatória mais ampla.
O movimento importa porque a Austrália está deixando para trás uma abordagem centrada apenas em “exchanges de moeda digital” e adotando o conceito mais amplo de Virtual Asset Service Providers (VASPs). Na prática, isso amplia obrigações de compliance para atividades como custódia, corretagem e outros serviços ligados a ativos digitais — uma direção parecida com a que outros mercados vêm tomando, inclusive no debate sobre fiscalização cripto no Brasil.
O que a AUSTRAC está fiscalizando
Segundo a própria AUSTRAC, citada pela Decrypt, a primeira campanha envolve 36 operadores de balcão que facilitam a conversão entre criptomoedas e dinheiro em espécie. Esse grupo foi enquadrado pela agência no eixo de “ramps and rails”, uma referência às rampas de entrada e saída entre o sistema financeiro tradicional e o mercado cripto.
A segunda campanha mira 27 exchanges cripto locais. O foco, neste caso, é avaliar a preparação dessas plataformas para o novo regime regulatório e revisar estruturas de governança, controles internos e práticas de gestão de risco contra lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo.
Brendan Thomas, CEO da AUSTRAC, afirmou em comunicado que a agência está verificando como as empresas cripto australianas administram riscos de lavagem de dinheiro antes da implementação plena das novas regras. Ele também disse que o regulador seguirá fornecendo orientação para que as empresas estejam preparadas para cumprir suas obrigações.
Regulação passa a cobrir mais do que exchanges
A mudança central está no escopo. A Austrália passou a usar o termo VASP, alinhado a padrões internacionais, no lugar da definição mais estreita de “digital currency exchange”. Isso significa que a fiscalização não se limita mais a plataformas que apenas compram e vendem cripto por moeda fiduciária.
Com a nova abordagem, serviços de custódia, corretagem e intermediação também entram no radar. Para o usuário final, isso tende a significar processos mais rígidos de identificação, monitoramento de transações e reporte de atividades suspeitas. Para empresas, aumenta o custo operacional, mas também pode reduzir a zona cinzenta regulatória que ainda afasta parte do capital institucional.
Esse ponto conversa diretamente com uma tendência maior do mercado: governos querem preservar inovação, mas estão exigindo controles equivalentes aos do sistema financeiro tradicional. Nos últimos meses, o CriptoBR também mostrou como stablecoins podem chegar a US$ 4 trilhões até 2030, enquanto reguladores tentam criar regras para um mercado que já movimenta volumes relevantes fora dos trilhos bancários convencionais.
Travel Rule entra no radar em julho
As reformas australianas começaram a valer em 31 de março, mas uma etapa importante ainda está pela frente. Requisitos adicionais ligados à chamada Travel Rule para transferências de ativos virtuais devem se tornar obrigatórios em 1º de julho.
A Travel Rule exige que determinados dados sobre remetente e destinatário acompanhem transferências financeiras, inclusive em operações cripto quando aplicável. O objetivo é dificultar o uso de ativos digitais para ocultar origem e destino de recursos, especialmente em movimentações entre plataformas reguladas.
Para o mercado, a consequência provável é uma separação mais clara entre empresas preparadas para operar em ambiente regulado e plataformas que dependem de estruturas mais flexíveis. Esse processo não é exclusivo da Austrália: nos EUA e em outros centros financeiros, produtos como ETFs, custódia institucional e tokenização também vêm sendo acompanhados por maior exigência de governança, como ocorreu com o avanço de fundos cripto listados na Nasdaq.
Por que isso importa para o investidor cripto
Embora a notícia seja local, o sinal é global. A Austrália está tratando cripto como infraestrutura financeira, não apenas como um nicho especulativo. Isso tende a pressionar exchanges, mesas de balcão, custodiante e corretoras a provarem que conseguem monitorar riscos sem travar a experiência do usuário.
Para investidores, o efeito pode ser duplo. No curto prazo, mais exigências podem tornar cadastros, saques e transferências menos simples. No médio prazo, porém, um ambiente regulatório mais claro pode facilitar a entrada de bancos, gestoras e empresas tradicionais, reduzindo o risco percebido por participantes institucionais.
A mensagem da AUSTRAC é direta: a fase de crescimento com pouca supervisão está ficando para trás. O setor cripto australiano agora precisa mostrar que consegue operar com padrões de compliance compatíveis com sua relevância financeira.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





