Matt Hougan, CIO da Bitwise, vê o mercado de stablecoins saltando de pouco mais de US$ 300 bilhões para até US$ 4 trilhões em 2030. A tese combina pilotos de big techs, pagamentos internacionais e regulação mais clara, mas ainda depende de adoção real fora do trading.
O mercado de stablecoins pode deixar de ser apenas uma engrenagem de liquidez das exchanges para virar uma infraestrutura global de pagamentos. Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, afirmou que a oferta desses tokens pode sair de pouco mais de US$ 300 bilhões hoje e chegar a cerca de US$ 4 trilhões até 2030, caso grandes plataformas de tecnologia acelerem o uso em pagamentos e liquidações.
A projeção, reportada pelo BanklessTimes com base em falas de Hougan e em cobertura do The Block, fica próxima ao cenário otimista do Citi para o setor. Em relatório próprio, o banco revisou sua estimativa para 2030 e passou a trabalhar com US$ 1,9 trilhão no cenário-base e US$ 4 trilhões no cenário bull para a emissão total de stablecoins.
Por que a conta das stablecoins cresceu
O argumento central é simples: quanto mais empresas usam stablecoins para pagamentos, remessas, recompensas e liquidação entre mercados, maior precisa ser a quantidade de tokens em circulação para sustentar esse fluxo. Segundo o material do Citi, a emissão do setor avançou de cerca de US$ 200 bilhões no início de 2025 para aproximadamente US$ 280 bilhões no período analisado pelo banco, com crescimento puxado por empresas digitais e novos projetos internacionais.
Hougan também cita testes envolvendo empresas como Meta, DoorDash e Stripe em redes como Solana e Polygon. Esses experimentos miram áreas onde os trilhos financeiros tradicionais ainda são caros ou lentos, especialmente pagamentos internacionais e repasses para trabalhadores freelancers. Esse movimento conversa com uma tendência que o CriptoBR já acompanha em matérias como stablecoins superando Bitcoin em compras na América Latina e a expansão dos pilotos da Visa com stablecoins.
O ponto relevante para o leitor brasileiro é que stablecoins já funcionam, em muitos países, como acesso prático ao dólar digital. Em mercados com moeda local instável, restrição bancária ou remessas caras, tokens como USDT e USDC deixam de ser apenas instrumentos de trading e passam a concorrer com soluções de pagamento e poupança de curto prazo.
Cenário de US$ 4 trilhões ainda exige cautela
Apesar do número chamar atenção, ele não é uma garantia. O próprio relatório do Citi trata stablecoins como parte de um ecossistema mais amplo, que inclui depósitos tokenizados, tokens bancários e CBDCs. Para clientes corporativos, bancos ainda podem ter vantagem por oferecer estruturas reguladas, integração contábil e relação direta com tesourarias.
Essa disputa importa porque o crescimento das stablecoins depende de confiança, interoperabilidade e regras claras. Se a regulação avançar sem bloquear inovação, emissores regulados podem ganhar espaço. Se houver fragmentação entre jurisdições ou pressão de bancos contra modelos abertos, a curva de adoção pode ser mais lenta.
Também há um efeito macro relevante: stablecoins lastreadas em dólares tendem a comprar títulos do Tesouro dos EUA e outros ativos líquidos de curto prazo. Se a oferta realmente se aproximar de trilhões de dólares, o setor pode virar uma fonte ainda maior de demanda por dívida americana — um tema próximo da corrida institucional por tokenização e de produtos de renda fixa on-chain.
O que observar agora
Para o mercado cripto, a pergunta não é apenas se o número de US$ 4 trilhões será atingido. O ponto principal é onde essa oferta será usada. Stablecoins presas em exchanges têm impacto limitado fora do trading. Stablecoins usadas por plataformas globais, fintechs, bancos e empresas de tecnologia podem ampliar a base de usuários cripto sem depender de ciclos especulativos.
Se a tese de Hougan estiver correta, as redes que conseguirem combinar baixo custo, liquidez, compliance e boa experiência de usuário devem capturar boa parte desse crescimento. Para investidores, isso coloca emissores de stablecoins, blockchains de alta capacidade, custodiante, infraestrutura de compliance e tokenização no centro da próxima fase de adoção institucional.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





