A Uniswap levou para votação on-chain duas propostas para ampliar a cobrança de taxas do protocolo, incluindo pools v4 e a recém-lançada Robinhood Chain. Se aprovadas, as fees serão direcionadas ao mecanismo de queima de UNI, reforçando a tese de captura de valor do token, mas reacendendo o debate sobre impacto para provedores de liquidez.
A Uniswap avançou neste sábado (18) com uma nova etapa do seu plano de ativar taxas de protocolo e direcionar parte dessa receita para a queima de UNI. O movimento envolve duas frentes: a expansão das fees para pools da Uniswap v4 e a inclusão da Robinhood Chain no mesmo modelo de cobrança e burn já usado em outras redes.
A pauta importa porque toca em uma das discussões mais antigas do DeFi: como transformar volume de negociação em valor econômico para o token de governança sem prejudicar os provedores de liquidez. A proposta chega em um momento em que a Robinhood Chain começa a ganhar tração e em que a Uniswap tenta consolidar a v4 como base técnica para novos mercados.
O que está em votação
No fórum de governança da Uniswap, a Uniswap Labs explicou que as taxas de protocolo já estão ativas em pools v2 e v3 em 11 redes, incluindo Ethereum, Arbitrum, Base, OP Mainnet, Polygon e BNB Chain. Segundo a proposta, essas fees acumulam em contratos chamados TokenJars e são usadas por participantes que queimam UNI, levando o token de volta à mainnet Ethereum e enviando-o ao endereço de burn.
A nova etapa tenta levar o modelo também para pools da v4. Como a arquitetura da Uniswap v4 usa hooks e pode ter estruturas de taxa mais flexíveis que v2 e v3, a proposta cria um sistema de controle específico, com contratos como V4FeePolicy e V4FeeAdapter para definir e aplicar as regras de cobrança por família de pool.
Na prática, a governança não precisaria configurar manualmente cada pool. O sistema classificaria pools por características, como uso de hooks, taxas dinâmicas e integração com agregadores, e aplicaria a taxa correspondente. A proposta afirma que as fees coletadas iriam para TokenJars nas respectivas redes, com o UNI queimado em L2s e alt-L1s sendo levado de volta ao Ethereum antes do envio ao endereço de queima.
A Robinhood Chain também entrou no radar. Em uma proposta separada, a Uniswap Labs afirma que a DEX lançou v2, v3 e v4 na rede junto com a estreia da mainnet, em 1º de julho, e que as implantações já haviam ultrapassado US$ 1 bilhão em volume acumulado até 10 de julho. A votação busca ativar taxas em v2, v3 e v4 na rede e integrá-las ao mesmo caminho de burn.
Por que isso mexe com o UNI
Para holders de UNI, a tese é direta: mais redes e mais versões do protocolo gerando fees podem ampliar a quantidade de tokens queimados. A proposta da v4 menciona que a Uniswap registrou no mês passado um recorde de 186 mil UNI queimados em um único dia, sinal de que o mecanismo já tem relevância quando há volume suficiente.
Essa discussão conversa com uma mudança maior no mercado DeFi. Protocolos que antes tratavam tokens de governança principalmente como votos estão tentando criar mecanismos mais claros de captura de valor. A Uniswap vinha nessa direção desde a proposta de UNIfication e já havia ampliado o modelo para outras redes, como o CriptoBR mostrou na matéria sobre taxas e queima de UNI na BNB Chain.
A chegada da Robinhood Chain adiciona outro vetor. A rede é parte da estratégia da corretora para levar ativos tokenizados e produtos on-chain a usuários fora do núcleo cripto tradicional. O CriptoBR já acompanhou o avanço inicial da rede, incluindo a entrada de US$ 70 milhões em ETH na primeira semana da Robinhood Chain e o lançamento da blockchain para ações tokenizadas da Robinhood.
O outro lado para provedores de liquidez
O ponto sensível é o impacto sobre LPs, os provedores de liquidez que deixam ativos nos pools e recebem parte das taxas pagas por traders. Se a taxa de protocolo retira uma fatia relevante da receita dos LPs, alguns participantes podem migrar liquidez para outros AMMs ou para forks da Uniswap.
Esse risco apareceu no próprio debate de governança. Um participante ligado ao ecossistema de opções Panoptic argumentou que aplicar o fee switch à v4 sem incentivos adicionais pode reduzir a atratividade dos LPs, especialmente porque eles já assumem riscos como perda impermanente e exposição à volatilidade dos pares.
A resposta implícita da proposta é que a cobrança será calibrada por famílias de pools e poderá ser ajustada pela governança. Ainda assim, o teste real será observar se a liquidez permanece competitiva depois da ativação, principalmente em redes onde a Uniswap disputa volume com outros protocolos.
Próximos passos
A proposta de v4 previa Snapshot entre 7 e 12 de julho e votação on-chain a partir da semana de 13 de julho. Já a proposta da Robinhood Chain teve Snapshot entre 10 e 15 de julho, com execução on-chain dividida em etapas por causa dos limites operacionais do GovernorBravo.
Se as votações forem aprovadas e executadas, a Uniswap amplia o alcance do seu sistema de queima de UNI para uma camada mais nova da sua própria arquitetura e para uma rede ligada a uma das maiores corretoras de varejo dos Estados Unidos. Para o mercado, o resultado deve servir como termômetro para uma pergunta central: tokens DeFi conseguem capturar valor de forma sustentável sem expulsar a liquidez que sustenta o protocolo?
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





