A Autoridade Nacional de Jogos da França ordenou que provedores locais bloqueiem o acesso ao Polymarket, alegando promoção de jogos de azar ilegais. A decisão aumenta a pressão europeia sobre mercados de previsão e reforça o debate sobre onde termina informação de mercado e começa aposta regulada.
A Autoridade Nacional de Jogos da França, a ANJ, ordenou que provedores de internet do país bloqueiem o acesso ao Polymarket. A decisão foi anunciada em 17 de julho de 2026, após uma ordem assinada no dia anterior pelo presidente do regulador francês.
Segundo a ANJ, o Polymarket continua promovendo uma oferta ilegal de jogos de azar e apostas, apesar de já estar sob atenção do órgão desde novembro de 2024. O caso importa porque coloca os mercados de previsão, que cresceram com força após as eleições dos EUA e durante grandes eventos esportivos, no centro de uma disputa regulatória cada vez mais global.
Regulador vê Polymarket como jogo de azar não autorizado
No comunicado, a ANJ afirma que os serviços oferecidos pela Adventure One QSS Inc., empresa ligada ao Polymarket, podem ser enquadrados como jogos de azar e apostas não autorizados na França. Para o regulador, a plataforma não apenas permite apostas sobre eventos futuros, mas também segue acessível e atualizada em tempo real, o que caracterizaria promoção de uma oferta ilegal.
A decisão aprofunda uma linha que a França já vinha adotando desde 2024. Em fevereiro de 2026, a própria ANJ publicou um alerta específico sobre plataformas de mercados de previsão, dizendo que esses sites não são autorizados no país e podem expor usuários a riscos de vício, manipulação e ausência de mecanismos de proteção típicos do mercado regulado.
O ponto sensível é que o Polymarket se apresenta como uma infraestrutura de informação baseada em preços de mercado. Usuários compram contratos que pagam conforme o resultado de eventos políticos, esportivos, econômicos ou culturais. Na prática, o preço de cada contrato funciona como uma probabilidade implícita. Para reguladores de jogos, porém, essa mecânica também se aproxima de aposta binária.
A ANJ cita ainda que a atividade ganhou audiência relevante na França. De acordo com a cobertura da Cointelegraph, o órgão também considera que a publicidade de sites de jogos não autorizados pode gerar sanções financeiras no país.
Pressão europeia aumenta sobre mercados de previsão
A França não está isolada. Espanha, Portugal, Polônia, Bélgica, Alemanha e outros países europeus já adotaram restrições ou bloqueios contra plataformas de previsão, com argumentos parecidos: ausência de licença local, risco de vício e dificuldade de separar produto financeiro, análise política e aposta.
Esse avanço regulatório se conecta a uma agenda maior na Europa. O bloco já trabalha para consolidar licenças cripto sob a MiCA, como mostrou o CriptoBR na cobertura sobre a ampliação do registro MiCA pela ESMA. Embora mercados de previsão não sejam o foco principal da MiCA, o caso mostra como produtos cripto híbridos tendem a cair em zonas regulatórias diferentes.
O Polymarket também tem enfrentado idas e vindas em outras jurisdições. Nos Estados Unidos, o debate passa pela Comissão de Negociação de Futuros de Commodities, a CFTC, e pela tentativa da plataforma de recuperar espaço no mercado local. O CriptoBR já acompanhou esse movimento quando a CFTC abriu caminho para Polymarket e Kalshi nos EUA e, mais recentemente, quando o Polymarket pediu aval para margem no país.
O que muda para usuários e para o setor
Para usuários franceses, a consequência imediata é a restrição de acesso via provedores locais. Para o setor, o recado é mais amplo: plataformas que usam contratos de evento para transformar notícias em instrumentos negociáveis devem esperar escrutínio simultâneo de autoridades de jogos, valores mobiliários, derivativos e proteção ao consumidor.
O caso também pressiona exchanges, carteiras e protocolos que pretendem integrar mercados de previsão como uma camada social de Web3. Quanto mais esses produtos ganham audiência, maior a chance de reguladores exigirem filtros geográficos, controles de idade, limites de exposição e regras claras sobre publicidade.
A discussão não deve desaparecer. Mercados de previsão são úteis para medir expectativas coletivas sobre eventos, mas o crescimento rápido do setor trouxe um dilema para governos: se o produto se comporta como mercado financeiro, aposta ou ambos, quem deve supervisionar?
Por enquanto, a resposta francesa foi direta. Sem autorização local, o Polymarket deixa de ser apenas um site estrangeiro acessível por usuários curiosos e passa a ser tratado como oferta ilegal que deve ser bloqueada na infraestrutura de internet do país.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





