A Tether iniciou o encerramento planejado da plataforma Alloy by Tether e do aUSD₮, stablecoin sintética supercolateralizada por Tether Gold. Novas emissões foram bloqueadas e usuários terão até 17 de setembro de 2026 para devolver aUSD₮ e recuperar XAU₮.
A Tether começou a desligar o Alloy by Tether e o aUSD₮, seu dólar sintético lastreado em ouro tokenizado, em uma decisão que reforça a disputa por liquidez dentro do mercado de stablecoins e ativos do mundo real tokenizados.
Segundo comunicado publicado pela própria Tether em 17 de junho, a empresa decidiu encerrar o produto após revisar atividade dos usuários, demanda de mercado e prioridades estratégicas. A partir de agora, a interface do Alloy não permite abrir novas posições nem emitir novos aUSD₮.
Para quem já usa a plataforma, o cronograma é direto: os clientes ainda podem devolver aUSD₮ e retirar o XAU₮ usado como garantia pelos próximos três meses. Depois de 17 de setembro de 2026, quem não tiver feito a devolução não poderá mais recuperar o XAU₮ pelo Alloy.
O que era o aUSD₮
O aUSD₮ foi criado como um ativo digital supercolateralizado por Tether Gold, o XAU₮. Na prática, o usuário depositava ouro tokenizado como garantia e podia emitir um ativo com referência ao dólar, sem vender a exposição ao ouro.
A proposta colocava o Alloy no cruzamento entre stablecoins, DeFi e RWA, setor que busca levar ativos tradicionais, como ouro, crédito e títulos, para redes blockchain. Mas a decisão da Tether indica que nem todo experimento de tokenização encontra profundidade de mercado suficiente para continuar recebendo capital e atenção operacional.
A empresa afirmou que pretende concentrar recursos em áreas com demanda mais forte, liquidez mais profunda e oportunidade de longo prazo mais ampla, incluindo o próprio XAU₮ e outros produtos centrais do ecossistema. O movimento conversa com a estratégia recente da companhia no ouro tokenizado, tema que também apareceu quando a Bybit levou opções de Tether Gold ao mercado cripto.
Por que a Tether está reduzindo a prateleira
O encerramento do Alloy não significa que a Tether está abandonando stablecoins ou tokenização. Pelo contrário: a leitura mais provável é que a empresa está cortando produtos de baixa tração para preservar foco em linhas com escala real.
O USDT segue como principal negócio da companhia, enquanto o XAU₮ continua sendo a aposta mais conhecida da Tether em ouro tokenizado. A empresa também vem testando novas frentes, como investimentos em infraestrutura, pagamentos e ativos tokenizados. Em maio, por exemplo, a companhia apareceu no radar quando a Fasset integrou ouro tokenizado da Tether a um cartão Visa.
Ao mesmo tempo, o mercado de stablecoins está ficando mais competitivo. Bancos, gestoras e fintechs passaram a olhar para reservas, liquidação e infraestrutura de emissão como oportunidades de receita. A State Street, por exemplo, mira reservas de stablecoins com novo fundo, mostrando que a competição não vem apenas de emissores cripto nativos.
Impacto para usuários e para o mercado
Para usuários do Alloy, o ponto principal é operacional: quem tem posição em aUSD₮ precisa acompanhar o prazo de resgate e desfazer a posição antes do corte de setembro. A Tether afirma que a transição será feita em fases para evitar nova exposição enquanto mantém um caminho de saída para posições existentes.
Para o mercado, o recado é mais amplo. Produtos de RWA podem ter narrativa forte, mas precisam provar uso recorrente, liquidez e uma base de usuários grande o suficiente para justificar manutenção. O caso do aUSD₮ mostra que até uma empresa com a escala da Tether pode abandonar uma estrutura se a demanda não compensar.
Esse ajuste também ajuda a separar duas tendências que costumam ser tratadas como uma só. O interesse por tokenização segue vivo, especialmente em ouro, crédito e reservas de stablecoins. Mas os produtos específicos dentro dessa tese ainda passam por seleção natural: os que não concentram liquidez tendem a ser encerrados, migrados ou absorvidos por ofertas mais simples.
No curto prazo, a decisão reduz a complexidade do ecossistema da Tether. No médio prazo, reforça que o próximo ciclo de stablecoins deve ser menos sobre lançar variações experimentais e mais sobre construir mercados profundos, regulados e fáceis de usar.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





