A Tether anunciou uma parceria com a Fasset para lançar um cartão Visa ligado ao Tether Gold, com recompensas de até 6% em XAU₮. A novidade tenta levar ouro tokenizado para pagamentos cotidianos, mas também expõe os usuários à dependência de conversão entre XAU₮, USDT e moeda fiduciária.
A Tether anunciou em 3 de junho uma parceria com a Fasset para lançar o que as empresas chamam de primeiro cartão Visa de neobanking lastreado em ouro. O produto permite que usuários gastem em estabelecimentos que aceitam Visa enquanto recebem recompensas em Tether Gold, o XAU₮, token associado a ouro físico.
O ponto central da notícia é a tentativa de transformar ouro tokenizado em algo mais próximo de um instrumento de pagamento. Segundo o anúncio da Tether, o cartão converte XAU₮ em USDT e depois em moeda fiduciária no momento da compra, permitindo liquidação nos trilhos tradicionais da Visa. A recompensa prometida chega a até 6% em XAU₮ em transações elegíveis.
Como o cartão funciona
Na prática, o usuário não paga diretamente o comerciante em ouro tokenizado. O arranjo usa uma cadeia de conversão: o saldo em XAU₮ pode ser convertido em USDT e, em seguida, em fiat para concluir a compra no ponto de venda. Isso preserva a experiência conhecida dos cartões, mas adiciona uma camada cripto por trás da operação.
A Fasset também apresenta uma função de arredondamento automático, em que o troco de compras pode ser investido em XAU₮. A Tether afirmou que vai comprometer até US$ 1 milhão em XAU₮ para abastecer o ecossistema inicial de recompensas do cartão.
O movimento conversa com uma tendência que o CriptoBR já vem acompanhando: empresas de pagamento estão tentando conectar stablecoins e ativos tokenizados a usos mais familiares. Na semana, a Mastercard avançou com stablecoins na liquidação global, enquanto a Oobit aproximou o gasto cotidiano com cripto de uma experiência parecida com cartões e carteiras digitais.
Por que isso importa para RWAs
O XAU₮ fica dentro da tese de ativos do mundo real tokenizados, conhecidos como RWAs. Em vez de representar apenas uma stablecoin em dólar, o token busca espelhar exposição a ouro físico. Ao acoplar esse ativo a um cartão Visa, Tether e Fasset tentam reduzir a distância entre “guardar valor” e “usar valor”.
Essa ponte é relevante porque o mercado de RWAs ainda depende de casos de uso simples para sair do nicho financeiro. Tesouros tokenizados, stablecoins e ouro digital podem atrair perfis diferentes de usuários, mas a adoção de massa costuma exigir interfaces menos técnicas, como cartões, apps bancários e cashback.
Também há um ângulo competitivo. A Tether já domina a emissão de USDT e vem expandindo iniciativas em pagamentos, carteiras e ativos lastreados. Como o CriptoBR mostrou recentemente, a empresa também prepara uma stablecoin lastreada em lari na Geórgia, sinalizando uma estratégia mais ampla para ocupar infraestrutura financeira em mercados emergentes.
O outro lado da novidade
Apesar do apelo de cashback em ouro, o modelo exige atenção. O usuário segue exposto aos termos da plataforma, às regras de elegibilidade das recompensas, à liquidez do XAU₮ e ao processo de conversão entre ativo tokenizado, USDT e moeda fiduciária. Não é a mesma coisa que entregar ouro diretamente ao lojista.
Há ainda questões de jurisdição e disponibilidade. A página promocional da Fasset fala em operação em 125 países, mas produtos de cartão costumam variar por região, verificação de identidade, regras locais e parceiros emissores. Para o leitor brasileiro, a principal leitura é menos “um cartão novo para usar amanhã” e mais um sinal de que stablecoins e RWAs estão disputando espaço na camada de pagamentos.
Se a iniciativa ganhar tração, ela pode reforçar a narrativa de que ativos tokenizados precisam ser úteis fora das exchanges. Se não ganhar, servirá como mais um teste de mercado para saber se usuários realmente querem gastar exposição em ouro no dia a dia ou apenas acumulá-la como reserva de valor.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





