A Ondo Finance fechou parceria com a Broadridge para levar voto por procuração e acesso a documentos regulatórios a mais de 250 ações e ETFs tokenizados. A iniciativa aproxima os RWAs das práticas do mercado tradicional e tenta responder a uma das críticas centrais às ações on-chain: a falta de direitos de governança claros.
A Ondo Finance anunciou nesta terça-feira (28) uma integração com a Broadridge Financial Solutions para permitir que investidores de ações e ETFs tokenizados participem de votações por procuração e acessem documentos corporativos ligados aos ativos subjacentes. A novidade vale para mais de 250 securities tokenizadas oferecidas pela plataforma.
O movimento é relevante porque ataca uma lacuna recorrente no mercado de ativos do mundo real tokenizados: a negociação on-chain pode trazer liquidez 24/7 e integração com DeFi, mas muitos produtos ainda ficam distantes dos direitos e fluxos de informação típicos de uma conta em corretora tradicional.
Como funciona a votação on-chain da Ondo
Segundo o comunicado da Broadridge e a cobertura do CoinDesk, os investidores poderão conectar suas carteiras cripto ao sistema ProxyVote, revisar prospectos, filings regulatórios e comunicações de emissores, além de registrar preferências de voto. Essas preferências serão usadas pela Ondo ao votar as ações subjacentes que dão lastro aos tokens.
A distinção é importante: os tokens da Ondo não concedem, por si só, direitos acionários diretos como uma ação tradicional mantida em custódia. Ainda assim, a possibilidade de expressar preferências de governança cria uma ponte entre a experiência cripto e os padrões operacionais de Wall Street.
Matthieu de Vergnes, chefe global institucional da Ondo, afirmou que a parceria ajuda a levar produtos financeiros de qualidade institucional para o ambiente on-chain. Já Doug DeSchutter, presidente de soluções de comunicação a investidores da Broadridge, disse que a integração conecta padrões de governança e divulgação dos mercados tradicionais à infraestrutura baseada em blockchain.
Por que isso importa para o mercado de RWA
A tokenização de ações e ETFs ganhou força nos últimos meses, especialmente após avanços regulatórios e testes envolvendo bolsas, emissores e plataformas cripto. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a aprovação da Nasdaq para negociar ações tokenizadas em programa piloto, a disputa agora não é apenas colocar ativos tradicionais na blockchain, mas fazer isso com controles, compliance e proteções comparáveis aos mercados regulados.
Dados citados pelo CoinDesk, com base na RWA.xyz, indicam que o segmento de ações tokenizadas já passa de US$ 1,1 bilhão em valor travado, após triplicar em um ano. A Ondo afirma ter mais de US$ 700 milhões em ações e ETFs tokenizados em sua plataforma Global Markets, voltada a investidores fora dos Estados Unidos.
Esse crescimento conversa com uma tendência mais ampla de tokenização. Em abril, o CriptoBR também destacou que o Congresso dos EUA debateu tokenização em meio a um mercado RWA de US$ 26 bilhões, sinalizando que o tema deixou de ser uma tese de nicho e entrou na pauta de infraestrutura financeira.
Governança pode virar diferencial competitivo
Para investidores institucionais, a ausência de relatórios, auditoria e participação em eventos societários ainda é um obstáculo para a adoção de securities tokenizadas. A Broadridge já opera infraestrutura crítica para comunicações e votos por procuração no mercado financeiro tradicional, e diz que sua nova solução permite lidar com ativos convencionais e tokenizados dentro dos mesmos fluxos.
Na prática, isso pode aumentar a confiança em produtos on-chain ao reduzir a sensação de que o token é apenas uma representação sintética isolada do ativo real. Quanto mais essas plataformas conseguirem reproduzir direitos, transparência e obrigações do mercado tradicional, maior tende a ser a aceitação por gestores, family offices e investidores qualificados.
Ainda há limites claros. A estrutura depende da forma como a Ondo mantém e vota os ativos subjacentes, e o produto segue restrito a investidores não americanos. Mesmo assim, a parceria com a Broadridge mostra que a próxima fase dos RWAs deve ser menos sobre “colocar tudo na blockchain” e mais sobre integrar a blockchain aos processos que já sustentam os mercados globais.
Esse ponto também ajuda a explicar por que empresas cripto vêm buscando parcerias com infraestrutura financeira tradicional. Em outra frente, a Ondo já havia ampliado sua presença ao levar ações e ETFs tokenizados dos EUA para a BNB Chain, reforçando que a competição por distribuição e governança deve caminhar junto.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





