O Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos realizou nesta quarta-feira (25) uma audiência histórica dedicada exclusivamente à tokenização de valores mobiliários e ao futuro dos mercados de capitais. O evento acontece em um momento decisivo: o mercado global de ativos do mundo real (RWA) tokenizados já ultrapassou US$ 26 bilhões, e o Clarity Act — principal projeto de lei para regulação cripto nos EUA — caminha para uma votação no Senado.
Audiência foca em regras para negociação de ativos tokenizados
A audiência, intitulada “Tokenization and the Future of Securities: Modernizing Our Capital Markets”, reuniu legisladores, representantes do setor financeiro tradicional e líderes da indústria cripto para discutir como títulos, ações e outros instrumentos financeiros tokenizados devem ser negociados dentro do arcabouço legal existente.
O debate ganha relevância prática após a SEC aprovar a Nasdaq para negociar ações tokenizadas em programa piloto, sinalizando que Wall Street já está se movimentando para integrar blockchain à infraestrutura de mercado.
A NASAA (Associação Norte-Americana de Administradores de Valores Mobiliários) enviou uma carta formal ao Comitê pedindo cautela, argumentando que a proteção ao investidor deve ser prioridade na transição para ativos digitais.
Mercado de RWA cresce e pressiona por regulação
O timing da audiência não é acidental. O mercado de ativos tokenizados do mundo real (RWA) atingiu US$ 26,48 bilhões, com destaque para Treasuries tokenizados que ultrapassaram a marca de US$ 12 bilhões — como reportamos quando Circle ultrapassou BlackRock nesse segmento.
Esse crescimento acelerado cria urgência legislativa: sem regras claras, projetos de tokenização operam em zonas cinzentas que geram insegurança jurídica para investidores institucionais e varejo.
Clarity Act avança em paralelo no Senado
A audiência na Câmara acontece enquanto o Senado trabalha para finalizar o Clarity Act, que avançou após acordo bipartidário sobre yield de stablecoins. O projeto, que já passou pela Câmara em 2025, enfrenta agora o desafio de conciliar interesses do setor bancário com as demandas da indústria cripto.
O texto mais recente proíbe o pagamento de rendimento sobre saldos ociosos de stablecoins, mas permite recompensas vinculadas a atividades como pagamentos e transferências. Dados do Polymarket indicam 68% de probabilidade de o Clarity Act ser aprovado em 2026.
O presidente da SEC, Paul Atkins, declarou que o trabalho regulatório feito até agora representa o “fim do começo” — referenciando Churchill — e que apenas o Congresso pode entregar uma reforma estrutural duradoura para o mercado cripto.
O que muda para o investidor
Se a tokenização avançar sob regulação clara, investidores terão acesso a ativos tradicionalmente restritos — como títulos do Tesouro americano, ações e imóveis — de forma fracionada, com liquidação quase instantânea e custos reduzidos.
Para o mercado brasileiro, a movimentação é relevante: o Brasil já tem iniciativas próprias de tokenização, como o projeto piloto da ANBIMA, e uma definição regulatória nos EUA tende a acelerar adoção global.
O senador Bernie Moreno (R-OH) alertou que, se o Clarity Act não chegar ao plenário do Senado até maio, o projeto pode ser engavetado pela corrida eleitoral de 2026. O relógio está correndo.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





