A Polymarket pediu licença nos EUA para oferecer negociação com margem em mercados de previsão. A plataforma ainda depende de aval da CFTC para mudar suas regras e permitir posições que não sejam totalmente colateralizadas.
A Polymarket deu mais um passo em sua volta regulada aos Estados Unidos ao pedir uma licença que pode permitir negociação com margem para usuários americanos. O movimento coloca a plataforma de mercados de previsão em uma disputa mais direta com a Kalshi, que já havia obtido autorização semelhante em março.
Segundo o CoinDesk, a afiliada americana Coming Home GBA LLC solicitou à National Futures Association uma licença de futures commission merchant, estrutura usada por intermediários registrados no mercado de derivativos dos EUA. Mesmo assim, a empresa ainda precisa de aprovação da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) para alterar seu rulebook e permitir contratos que não sejam totalmente colateralizados.
O que muda com margem na Polymarket
Hoje, mercados de previsão normalmente exigem que o usuário deposite o valor total da posição antes de operar. Com margem, o trader poderia abrir exposição maior com menos capital inicial, uma prática comum em mercados tradicionais, mas que aumenta tanto a eficiência de capital quanto o risco de liquidação.
Para a Polymarket, a licença seria mais que um ajuste operacional. Ela ajudaria a empresa a reconstruir presença nos EUA depois de um acordo de 2022 com a CFTC, quando a plataforma aceitou pagar US$ 1,4 milhão e encerrar o atendimento a clientes americanos por oferecer derivativos baseados em eventos sem registro adequado.
A pauta se conecta ao avanço mais amplo dos mercados de previsão regulados. Como o CriptoBR mostrou em CFTC abre caminho para Polymarket e Kalshi nos EUA, a disputa deixou de ser apenas sobre apps de apostas e passou a envolver a fronteira entre derivativos federais, jogos regulados por estados e produtos financeiros de varejo.
CFTC segue como ponto decisivo
O pedido à NFA não libera automaticamente a oferta de margem. A CFTC ainda precisa aceitar mudanças nas regras da plataforma, justamente o ponto mais sensível: permitir que contratos de evento sejam negociados sem colateral integral. Esse detalhe define se o produto será tratado como uma evolução natural dos mercados de previsão ou como uma camada de alavancagem sobre apostas de resultado.
A Kalshi serve como referência porque recebeu aval para operar com margem antes da Polymarket. Ao mesmo tempo, a própria Kalshi segue enfrentando questionamentos estaduais, o que mostra que a aprovação federal não elimina todas as frentes regulatórias. Essa tensão também apareceu quando o CriptoBR cobriu a revisão de regras da CFTC envolvendo a Polymarket.
O tema ganhou escala porque os mercados de previsão deixaram de ser nicho. O CoinDesk citou estimativas de que o volume do setor chegou a US$ 51 bilhões no ano passado e pode alcançar cerca de US$ 240 bilhões em 2026. A Bernstein, por sua vez, já projeta que esse mercado pode chegar a US$ 1 trilhão até 2030 se evoluir para uma infraestrutura ampla de “mercados de informação”.
Por que importa para cripto
A Polymarket nasceu com forte ligação ao universo cripto, usando stablecoins e infraestrutura on-chain em sua operação global. Nos EUA, porém, a empresa tenta se apresentar com uma estrutura mais próxima do mercado regulado, separando a tese de “mercados de informação” da imagem de plataforma offshore de apostas.
Esse reposicionamento é relevante para exchanges, protocolos e investidores porque antecipa uma pergunta maior: até onde produtos originalmente cripto podem se adaptar ao arcabouço financeiro americano sem perder sua proposta de liquidez global e operação contínua? O mesmo debate aparece em produtos de derivativos regulados, como no caso do primeiro perp de Bitcoin regulado aprovado pela CFTC.
Se a CFTC aprovar a mudança, a Polymarket ganha uma ferramenta importante para competir por usuários sofisticados e aumentar volume. Se o regulador barrar ou atrasar o processo, a mensagem será clara: a volta aos EUA pode até estar aberta, mas a alavancagem em mercados de evento continuará sendo tratada com cautela.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





