O Comitê de Supervisão da Câmara dos EUA abriu investigação contra Polymarket e Kalshi por suspeitas de insider trading em mercados de previsão. O caso mira controles de identidade, restrições geográficas e detecção de apostas suspeitas, com possível impacto direto na regulação do setor.
O Congresso dos Estados Unidos abriu uma nova frente de pressão sobre os mercados de previsão. O Comitê de Supervisão e Reforma do Governo da Câmara iniciou uma investigação sobre Polymarket e Kalshi após suspeitas de que usuários possam ter usado informações não públicas para lucrar em contratos ligados a política, segurança nacional e eventos militares.
Segundo comunicado oficial do comitê, o deputado James Comer, presidente da comissão, enviou cartas aos CEOs Shayne Coplan, da Polymarket, e Tarek Mansour, da Kalshi, pedindo documentos internos sobre verificação de identidade, bloqueios por jurisdição e monitoramento de negociações anômalas. A apuração aumenta a pressão regulatória sobre um setor que cresceu rapidamente ao transformar eventos do mundo real em mercados negociáveis.
O que o Congresso quer das plataformas
O ponto central da investigação é entender se as plataformas têm mecanismos suficientes para impedir que pessoas com acesso privilegiado a informações sensíveis façam apostas antes do público. A preocupação é especialmente alta em mercados ligados a decisões governamentais, operações militares, eleições e temas de política externa.
No comunicado, o comitê afirma que registros internos das plataformas podem ser o único caminho para identificar maus atores e avaliar se as empresas cumprem suas obrigações legais. O pedido inclui dados sobre como Polymarket e Kalshi verificam usuários nacionais e internacionais, aplicam restrições geográficas e detectam padrões incomuns de negociação.
A investigação ocorre poucos dias depois de novas discussões em Washington sobre o avanço das regras para ativos digitais. Como o CriptoBR mostrou na cobertura sobre o Clarity Act e o possível impacto sobre produtos de yield cripto, o Congresso tenta separar inovação financeira de brechas regulatórias em um mercado que já mistura DeFi, stablecoins, exchanges e produtos de apostas baseados em eventos.
Por que isso importa para cripto
Polymarket é uma das marcas mais conhecidas desse segmento por operar com infraestrutura cripto e liquidação baseada em stablecoins. Embora Kalshi siga outra estrutura regulatória nos EUA, as duas plataformas acabaram entrando na mesma discussão: até que ponto mercados de previsão são ferramentas legítimas de informação ou viram um canal para monetizar dados privilegiados?
Essa diferença importa para investidores porque mercados de previsão costumam ser apresentados como termômetros em tempo real da probabilidade de eventos. Se parte relevante do volume vier de operadores com acesso a dados sigilosos, a confiança nesses preços fica comprometida e o risco de resposta regulatória aumenta.
O tema também conversa com uma pauta mais ampla de fiscalização. Em março, o CriptoBR já havia destacado que apostas militares na Polymarket levantavam alerta de insider. Agora, a entrada formal do Comitê de Supervisão amplia o caso de uma suspeita de mercado para uma investigação política com pedido de documentos.
Mercado de previsão entra no radar regulatório
De acordo com o CoinDesk, Comer disse à CNBC que há preocupação com a possibilidade de membros do Congresso, funcionários da administração presidencial ou outros servidores públicos lucrarem com conhecimento interno sobre temas relacionados ao governo. O parlamentar também sinalizou que a investigação pode servir de base para uma proposta legislativa que limite ou proíba a participação de agentes públicos nesses mercados.
O Cointelegraph também relatou que o pedido às empresas cita negociações suspeitas associadas a ações militares dos EUA contra o Irã. Esse tipo de contrato coloca as plataformas em uma zona sensível: eventos geopolíticos podem atrair liquidez, mas também envolvem informações que nem sempre estão disponíveis ao público no momento em que as apostas são feitas.
Para o ecossistema cripto, o caso reforça uma leitura que já aparece em outras áreas: produtos financeiros baseados em blockchain não escapam automaticamente das regras tradicionais quando tocam temas como integridade de mercado, acesso privilegiado e proteção ao usuário. Essa mesma tensão aparece em debates sobre ETFs, stablecoins e tokenização, como na cobertura recente do CriptoBR sobre a16z e o teste regulatório do Clarity Act nos EUA.
O que observar agora
O próximo ponto de atenção é a resposta de Polymarket e Kalshi aos pedidos do comitê. Se os documentos indicarem falhas relevantes em KYC, bloqueios geográficos ou vigilância de mercado, a pressão por novas regras deve aumentar. Se as empresas mostrarem controles robustos, podem tentar defender que o setor consegue se autorregular com auditoria e cooperação com autoridades.
Mesmo assim, o risco político já mudou de patamar. Mercados de previsão deixaram de ser apenas uma ferramenta de nicho para traders e passaram a ocupar espaço em discussões sobre segurança nacional, eleições e conduta de agentes públicos. Para o leitor brasileiro, o recado é simples: quando uma plataforma cripto cresce rápido demais em áreas sensíveis, a regulação tende a chegar logo atrás.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





