A Coinbase frustrou Wall Street no 1º trimestre, com receita abaixo do esperado e queda nas ações. Mesmo assim, analistas veem stablecoins, derivativos, mercados de previsão e uma possível lei cripto nos EUA como motores para a segunda metade de 2026.
A Coinbase voltou ao centro do debate em Wall Street após divulgar resultados do primeiro trimestre abaixo das expectativas. A maior exchange cripto dos Estados Unidos reportou receita de US$ 1,41 bilhão, abaixo dos US$ 1,52 bilhão esperados por analistas ouvidos pela LSEG, segundo a CNBC, enquanto as ações caíam cerca de 4% no after-market.
O ponto que segurou parte do otimismo não veio do trading à vista, mas da tentativa da empresa de se tornar uma infraestrutura financeira mais ampla. Segundo o CoinDesk, bancos e casas de análise passaram a olhar para stablecoins, derivativos, mercados de previsão, pagamentos e ativos tokenizados como possíveis amortecedores contra os ciclos de alta e baixa do mercado cripto.
Trading pesa, mas stablecoins ganham espaço
A pressão veio principalmente da queda no apetite por negociação. A CNBC informou que a receita de transações da Coinbase somou US$ 755,8 milhões, abaixo dos US$ 805,2 milhões projetados, enquanto a receita de assinaturas e serviços ficou em US$ 583,5 milhões, também abaixo da estimativa de US$ 619,3 milhões.
O resultado reflete um início de ano mais fraco para os criptoativos: o Bitcoin chegou a subir em março, mas encerrou o trimestre com queda acumulada, reduzindo o volume de negociação que historicamente sustenta boa parte da receita da Coinbase.
Ao mesmo tempo, a linha de stablecoins mostrou resiliência. A CNBC apontou que a receita com stablecoins chegou a US$ 305 milhões, acima dos US$ 274 milhões registrados um ano antes, impulsionada pelo crescimento do USDC e pelo maior saldo médio de USDC mantido em produtos da Coinbase.
Esse movimento conversa com uma tese que vem ganhando força no setor: stablecoins deixam de ser apenas “dólares on-chain” para traders e passam a funcionar como infraestrutura de pagamentos, liquidação e produtos financeiros programáveis. Como o CriptoBR mostrou em relatório da Bitwise sobre stablecoins, parte do mercado já projeta expansão trilionária para esse segmento até o fim da década.
Lei cripto nos EUA vira peça central
O otimismo de algumas casas não ignora o trimestre ruim. O argumento é que a Coinbase pode se beneficiar se os Estados Unidos avançarem em regras mais claras para ativos digitais, especialmente com o CLARITY Act, projeto que busca definir quando um criptoativo fica sob supervisão da SEC ou da CFTC.
De acordo com o CoinDesk, o JPMorgan classificou o ambiente do trimestre como desafiador, mas manteve visão construtiva ao afirmar que a empresa está posicionada para operar em um mundo cada vez mais digital. A expectativa citada por executivos da Coinbase é de avanço do texto no Senado ainda em maio, com votação mais ampla no verão do Hemisfério Norte.
A conexão com stablecoins também é direta. O debate regulatório nos EUA já vinha afetando bancos, emissores e exchanges, como ocorreu no acordo em discussão sobre rendimentos de stablecoins no Senado americano. Para a Coinbase, regras mais previsíveis poderiam reduzir o custo de expansão de produtos como USDC, tokenização e pagamentos.
Derivativos e mercados de previsão entram no radar
Além das stablecoins, analistas destacaram produtos mais novos. A CNBC informou que o volume de derivativos da Coinbase chegou a cerca de US$ 4,2 bilhões no trimestre, alta de 169% em relação ao ano anterior. A empresa também atingiu participação global recorde de 8,6% em volume de negociação cripto.
Outro ponto citado pelo CoinDesk foi o avanço dos mercados de previsão, que, segundo analistas, já passavam de US$ 100 milhões em receita anualizada em março. A tese é que a estratégia de “everything exchange” — uma plataforma que reúne cripto, derivativos, eventos, pagamentos e ativos tokenizados — pode reduzir a dependência do simples compra e venda de tokens.
Essa guinada também ajuda a explicar por que a Coinbase tem se aproximado de infraestrutura para pagamentos e inteligência artificial. Nesta sexta-feira, o CriptoBR noticiou que AWS, Coinbase e Stripe criaram uma fundação para pagamentos cripto por agentes de IA, outro sinal de que a exchange quer capturar uso recorrente além do trading especulativo.
O que isso significa para o investidor cripto
Para o mercado, a leitura é dupla. No curto prazo, o resultado reforça que exchanges ainda sofrem quando o volume à vista encolhe e o preço dos criptoativos perde força. No longo prazo, a pergunta é se produtos como stablecoins, Base, derivativos e mercados de previsão conseguem formar uma receita menos volátil.
Barclays e Compass Point, segundo o CoinDesk, seguiram céticas e alertaram que a Coinbase continua muito exposta aos ciclos cripto. Já JPMorgan, Clear Street, Oppenheimer e William Blair viram sinais de que a diversificação pode ganhar tração se o Bitcoin estabilizar e se Washington entregar um marco regulatório mais claro.
Para o leitor brasileiro, o ponto principal é que a Coinbase virou um termômetro da institucionalização cripto. Se a empresa continuar dependendo quase exclusivamente de euforia no trading, seus resultados seguirão cíclicos. Se stablecoins, pagamentos e produtos regulados avançarem, a exchange pode se tornar menos uma corretora de bull market e mais uma camada de infraestrutura financeira global.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





