O Senado dos EUA destravou uma parte sensível do Clarity Act ao propor limites para rendimento em stablecoins. O texto proíbe produtos parecidos com juros bancários, mas preserva recompensas ligadas ao uso real de plataformas cripto.
O mercado cripto ganhou um novo sinal político nos Estados Unidos após senadores divulgarem uma versão de compromisso do Digital Asset Market Clarity Act, projeto que tenta organizar regras para ativos digitais no país. Segundo o CoinDesk, o ponto mais sensível do acordo mira os rendimentos pagos sobre stablecoins: emissores e plataformas não poderiam remunerar usuários apenas por manter saldos parados, mas ainda poderiam oferecer incentivos ligados a atividades reais dentro de seus produtos.
A mudança importa porque stablecoins viraram uma das maiores frentes de disputa entre bancos, corretoras cripto e emissores de tokens lastreados em dólar. Como o CriptoBR mostrou na cobertura sobre bancos tentando frear a lei de stablecoins nos EUA, o setor bancário vinha pressionando para impedir que plataformas cripto oferecessem produtos parecidos com depósitos remunerados.
O que muda no texto do Clarity Act
O compromisso foi costurado pelos senadores Thom Tillis e Angela Alsobrooks após meses de negociação com empresas cripto, bancos e interlocutores da Casa Branca. Na prática, o texto separa dois tipos de incentivo: rendimento pago simplesmente por manter stablecoins e recompensas associadas a uma transação ou atividade considerada legítima.
O primeiro modelo ficaria barrado quando for equivalente, em termos econômicos ou funcionais, ao juro de um depósito bancário. Já o segundo poderia continuar existindo se estiver ligado ao uso da plataforma, de forma semelhante a programas de recompensa por atividade em cartões ou serviços financeiros.
A Coinbase, uma das empresas mais expostas ao debate, sinalizou apoio ao novo texto. Brian Armstrong, CEO da corretora, pediu avanço da proposta no Congresso, enquanto o diretor jurídico Paul Grewal afirmou que a linguagem preserva recompensas baseadas em participação real em redes e plataformas cripto.
Por que isso afeta Bitcoin e o apetite por risco
A notícia também chegou em um momento em que o Bitcoin voltou a rondar os US$ 78 mil, recuperando parte da queda vista no meio da semana. O CoinDesk apontou que a combinação de alta em ações americanas, balanços fortes de empresas de tecnologia e menor tensão no petróleo ajudou o mercado a buscar novamente a região dos US$ 80 mil.
Esse contexto conversa com a leitura publicada pelo CriptoBR em Bitcoin mira US$ 80 mil após balanços de big techs. A diferença agora é que o impulso não vem só do macro: a retirada de um obstáculo regulatório relevante pode melhorar a percepção de risco para empresas listadas, corretoras e emissores de stablecoins.
Ainda assim, o avanço não significa aprovação imediata. O texto precisa passar pelo chamado markup no Comitê Bancário do Senado, etapa em que parlamentares debatem e alteram formalmente a proposta. Se virar lei, o Departamento do Tesouro e a CFTC ainda teriam até um ano para detalhar como as regras de rendimento seriam aplicadas.
Stablecoins seguem no centro da regulação
O recorte sobre rendimento mostra que stablecoins continuam sendo o ponto de atrito mais importante entre o sistema financeiro tradicional e o mercado cripto. Para bancos, permitir rendimento amplo em tokens de dólar poderia desviar depósitos. Para empresas cripto, impedir qualquer recompensa reduziria a utilidade de carteiras, corretoras e redes on-chain.
Essa disputa ocorre enquanto emissores como a Tether ampliam reservas e lucros, tema abordado pelo CriptoBR na matéria Tether lucra US$ 1 bi e amplia colchão do USDT. O crescimento desses players aumenta a pressão para que Washington defina regras mais claras antes que o mercado avance por conta própria.
Para o leitor brasileiro, o ponto central é simples: uma lei americana mais clara pode influenciar liquidez global, produtos oferecidos por exchanges e o ritmo de entrada institucional em cripto. O acordo não elimina a incerteza, mas indica que o Senado tenta construir uma ponte entre proteção ao sistema bancário e espaço para inovação em stablecoins.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





