A Coinbase rejeitou formalmente o novo rascunho do Clarity Act, que propõe banir rendimentos sobre saldos passivos de stablecoins nos EUA. A reação derrubou as ações da Circle em 20% e da própria Coinbase em quase 10%, enquanto o futuro da regulação cripto americana fica cada vez mais incerto.
A maior exchange de criptomoedas dos Estados Unidos decidiu comprar uma briga que pode redefinir o futuro das stablecoins no país. A Coinbase rejeitou publicamente o novo rascunho do Clarity Act — o projeto de lei que busca regular o mercado de estrutura cripto nos EUA — durante uma reunião com senadores na última segunda-feira.
O ponto central da disputa é simples, mas com consequências enormes: o rascunho, liderado pelos senadores Thom Tillis e Angela Alsobrooks, propõe proibir emissores de stablecoins de pagar rendimentos (yield) a usuários que apenas mantêm os ativos parados. Só seriam permitidas “recompensas baseadas em atividade”, como usar a stablecoin para pagamentos, trading ou empréstimos.
Circle despenca 20% e arrasta Coinbase
O mercado reagiu antes mesmo da Coinbase se posicionar formalmente. A Circle — emissora do USDC — registrou sua pior queda diária desde o IPO, com as ações caindo 20% na terça-feira. A Coinbase, principal plataforma de distribuição do USDC, recuou quase 10%, fechando a US$ 181,10.
O yield sobre stablecoins funciona como o juro de uma conta bancária: você deposita USDC ou USDT e recebe rendimentos. É exatamente isso que os bancos tradicionais consideram concorrência desleal — e a razão pela qual pressionaram o Congresso a incluir essa restrição na lei.
Como reportamos quando o Clarity Act avançou no Senado, o projeto já carregava tensões entre a indústria cripto e o setor bancário. Agora, com a Coinbase rompendo o acordo, o cenário ficou ainda mais incerto.
O peso político da Coinbase
A rejeição da Coinbase não é apenas simbólica. A exchange é uma das maiores financiadoras do Fairshake Super PAC, organização política bipartidária que investiu milhões de dólares para eleger candidatos pró-cripto ao Congresso — incluindo doações significativas à campanha do presidente Donald Trump.
Senadores que apoiam o Clarity Act enfrentam agora um dilema: avançar com um projeto que pode custar financiamento de campanha ou ceder às demandas da indústria.
A senadora Cynthia Lummis, de Wyoming, pediu um novo compromisso, alertando que mais atrasos prejudicam o futuro financeiro dos EUA. A comunidade cripto, por sua vez, demonstrou frustração nas redes sociais com a sensação de que a regulação está eternamente “quase pronta”.
Tether anuncia auditoria Big Four em meio ao caos
Em um timing peculiar, a Tether anunciou que contratou uma das Big Four (as quatro maiores firmas de auditoria do mundo) para realizar sua primeira auditoria completa de reservas do USDT. A stablecoin, que lidera o mercado com US$ 184 bilhões em capitalização, sempre foi criticada pela falta de transparência — oferecendo apenas “atestações” trimestrais em vez de auditorias formais.
A Circle, em contraste, já é auditada anualmente pela Deloitte e publica atestações mensais do USDC (US$ 78,6 bilhões em market cap). Mas nem essa credibilidade a protegeu da queda provocada pela ameaça regulatória.
O que isso significa para o mercado
Se o Clarity Act avançar com a restrição de yield, plataformas como Coinbase, Kraken e dezenas de apps DeFi que oferecem rendimento sobre stablecoins terão que reformular seus modelos de negócio. Para o ecossistema DeFi de stablecoins, que já enfrenta seus próprios desafios, seria mais um golpe.
Com o ciclo eleitoral de 2026 se aproximando, o tempo para aprovar regulação cripto está se esgotando. A pergunta que o mercado se faz: a clareza regulatória vem em 2026 — ou é mais uma promessa empurrada para 2027?
Enquanto Washington se enrola, o Brasil também vive seu próprio embate sobre tributação de stablecoins, mostrando que a tensão entre inovação cripto e regulação é um fenômeno global.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





