A Circle congelou cerca de US$ 12,6 milhões em USDC dentro do contrato cUSDC da Zama após uma ordem judicial nos EUA ligada à disputa da Overnight Finance. O caso reacendeu o debate sobre stablecoins centralizadas em protocolos DeFi, já que o bloqueio atingiu um contrato compartilhado e não apenas uma carteira individual.
A Circle colocou na lista de bloqueio o contrato de USDC confidencial da Zama, travando aproximadamente US$ 12,6 milhões em tokens dentro de um wrapper de privacidade no Ethereum. A medida ocorreu após uma ordem judicial dos Estados Unidos relacionada a uma disputa civil envolvendo a Overnight Finance, segundo documentos judiciais e reportagens do Cointelegraph e da CCN.
O ponto sensível é que o bloqueio atingiu o contrato cUSDC como um todo. Na prática, usuários que mantinham USDC no mesmo wrapper também ficaram expostos ao congelamento, mesmo que não fossem parte direta da disputa. Para o mercado, o episódio reforça uma pergunta incômoda: até onde vai a descentralização de um protocolo quando o ativo usado nele continua sob controle de um emissor centralizado?
O que aconteceu com o cUSDC da Zama
A Zama trabalha com criptografia de computação sobre dados cifrados, conhecida como FHE, e desenvolveu um wrapper chamado cUSDC para permitir transações com valores protegidos. O mecanismo pode esconder saldos e valores transferidos, mas o lastro continua sendo USDC comum mantido em um contrato inteligente no Ethereum.
De acordo com o Cointelegraph, o investigador on-chain ZachXBT apontou que cerca de US$ 12,4 milhões ligados à Overnight Finance teriam sido depositados no protocolo da Zama em 11 de maio. A CCN afirmou que a ordem judicial veio no processo Newton AC/DC Fund L.P. et al. v. Maxim Ermilov et al., aberto no Distrito Norte da Califórnia, com audiência marcada para 1º de junho.
O documento de aplicação de medida temporária, disponível no CourtListener, cita um pedido para restringir ativos e orientar a Circle Internet Financial a bloquear determinados fundos. O processo envolve alegações de movimentação indevida de recursos ligados à tesouraria da Overnight Finance. Até aqui, as reportagens consultadas não indicam que a Zama seja acusada de operar o suposto desvio.
Rand Hindi, fundador da Zama, afirmou no X que a equipe identificou a raiz do problema com ajuda de ZachXBT e que o caso não estaria ligado à tecnologia de privacidade em si. Segundo ele, a empresa busca isolar o depósito problemático para liberar usuários não envolvidos.
https://x.com/randhindi/status/2060671833674797162
Por que o caso pesa para stablecoins e DeFi
O USDC possui controles de conformidade que permitem o bloqueio de endereços em situações como ordem judicial, sanções ou solicitação de autoridades. Esse desenho faz parte do modelo regulado da stablecoin, mas cria um risco específico quando o token fica concentrado em contratos compartilhados de DeFi.
Em uma carteira individual, o bloqueio tende a afetar aquele endereço. Em um contrato que reúne fundos de vários usuários, a ordem pode atingir todo o pool. É por isso que o episódio da Zama virou um caso de teste para protocolos que combinam privacidade, stablecoins reguladas e liquidez compartilhada.
O tema também conversa com a expansão recente das stablecoins no sistema financeiro. O CriptoBR mostrou nesta segunda-feira que a SoFi prepara uma stablecoin bancária para 15 milhões de usuários, enquanto outras iniciativas tentam aproximar pagamentos tradicionais e infraestrutura cripto. Esse avanço aumenta a relevância de regras claras sobre bloqueios, compliance e proteção de usuários terceiros.
Também não é a primeira vez que o alcance jurídico sobre stablecoins chama atenção no Brasil e no exterior. Em maio, a Justiça de São Paulo mandou congelar USDC em um caso de cobrança, sinalizando que ordens judiciais podem ir além das exchanges quando há ativos rastreáveis on-chain.
O outro lado: conformidade também protege usuários
Há um contraponto importante. Emissores regulados de stablecoins argumentam que mecanismos de bloqueio ajudam a cumprir decisões judiciais, combater sanções e responder a crimes financeiros. Sem esse tipo de controle, empresas como a Circle teriam mais dificuldade para operar dentro do sistema financeiro tradicional e manter acesso a bancos, auditores e reguladores.
O problema, neste caso, está no efeito colateral. Se um único depósito suspeito dentro de um wrapper pode congelar todo o contrato, protocolos que usam USDC precisam repensar arquitetura, segregação de fundos e mecanismos de resposta. Para usuários, a lição é direta: privacidade transacional não elimina o risco de congelamento do ativo subjacente.
O caso também chega em um momento no qual a Circle amplia sua presença institucional. O CriptoBR acompanhou recentemente a captação para a Arc, rede da Circle apoiada por BlackRock e Apollo, movimento que mostra como a empresa tenta se posicionar como infraestrutura regulada para pagamentos e ativos tokenizados.
A audiência desta segunda-feira deve indicar se os fundos poderão ser isolados ou parcialmente liberados. Até lá, o congelamento da Zama fica como um alerta para desenvolvedores e usuários: em DeFi, o contrato pode ser descentralizado, mas o ativo dentro dele nem sempre é.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





