A SoFi liberou o SoFiUSD dentro de seu app bancário para quase 15 milhões de membros, em uma das primeiras ofertas de stablecoin emitida por banco nacional dos EUA diretamente ao varejo. O movimento coloca Ethereum, Solana e bancos regulados no centro da disputa por pagamentos digitais em dólar.
A SoFi colocou sua stablecoin SoFiUSD diretamente dentro do aplicativo bancário da empresa, abrindo a compra, venda, custódia e conversão do token para sua base de quase 15 milhões de membros. Segundo comunicado da própria companhia, o ativo é emitido pelo SoFi Bank, N.A., tem resgate 1:1 em dólar e está disponível nas redes Ethereum e Solana.
O lançamento importa porque desloca a narrativa das stablecoins para além de corretoras e emissores cripto-nativos. Em vez de um token usado principalmente em exchanges, a SoFi tenta transformar o dólar tokenizado em um produto bancário de varejo, integrado ao mesmo app usado para conta, investimento, crédito e serviços financeiros tradicionais.
A empresa afirma que o SoFiUSD é a primeira stablecoin emitida por um banco nacional dos Estados Unidos a ficar disponível diretamente em uma plataforma bancária ao consumidor. A promessa é simples: unir a velocidade de uma blockchain pública com a familiaridade regulatória de uma instituição supervisionada.
Stablecoin bancária muda a disputa por dólares digitais
De acordo com a SoFi, o SoFiUSD mantém reservas líquidas para todos os tokens em circulação e terá atestações regulares feitas por contador público certificado nos Estados Unidos. A companhia também informou que a stablecoin será inicialmente multichain, com Ethereum e Solana como primeiras redes, enquanto novas integrações podem ser adicionadas depois.
O ponto sensível é que stablecoins deixaram de ser apenas infraestrutura de trading. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre stablecoins superando reservas de 95 países, o tamanho desse mercado já é grande o bastante para entrar no radar de bancos, reguladores e emissores de dívida pública.
Esse crescimento também explica a resistência do setor bancário tradicional. Em maio, bancos tentaram frear a lei de stablecoins nos EUA, especialmente por medo de que emissores digitais passem a competir por depósitos e serviços de pagamento. A SoFi inverte parte dessa lógica: em vez de combater o modelo, usa sua licença bancária para emitir o próprio token.
Ethereum, Solana e pagamentos 24/7
A escolha por Ethereum e Solana indica que a SoFi quer atender dois usos diferentes. Ethereum oferece liquidez e compatibilidade ampla com a infraestrutura cripto existente. Solana, por sua vez, é apresentada pelo mercado como uma rede voltada a pagamentos de baixo custo e alta velocidade.
No comunicado, a SoFi diz que pretende expandir o produto para transferências globais 24 horas por dia, sete dias por semana, com menos atrasos e custos menores que os sistemas legados. A empresa também cita uma etapa futura em que usuários poderão converter SoFiUSD em depósitos tokenizados com rendimento e possível cobertura FDIC, sujeitos a termos separados de conta de depósito.
Esse detalhe é importante: stablecoin e depósito tokenizado não são a mesma coisa. A própria SoFi inclui aviso de que criptoativos e outros ativos digitais não contam com seguro FDIC, não têm garantia bancária e podem perder valor. O discurso comercial, portanto, vem acompanhado de uma linha regulatória clara sobre onde termina o token e onde começa o produto bancário segurado.
A integração também conversa com a tese de tokenização que vem ganhando força em Wall Street. O CriptoBR já mostrou como a DTCC levou sua estratégia de tokenização à Stellar e como a BlackRock passou a mirar stablecoins com fundos tokenizados. O SoFiUSD aparece no mesmo movimento: instituições reguladas tentando transformar ativos digitais em infraestrutura financeira comum.
O que muda para o usuário
Para o usuário comum, a diferença prática está na experiência. Em vez de abrir conta em uma corretora cripto, transferir dinheiro, comprar stablecoin e lidar com carteiras externas, o cliente da SoFi poderá acessar o token dentro do app bancário que já usa.
Isso não elimina riscos, mas reduz atrito. O modelo pode atrair consumidores que não querem operar em exchanges, mas aceitam usar dólares tokenizados se o acesso estiver dentro de uma marca financeira conhecida. Para o mercado, é um teste relevante de adoção: se stablecoins bancárias encontrarem uso real em pagamentos, remessas e liquidação institucional, a competição com USDT, USDC e emissores independentes tende a ficar mais intensa.
A disponibilidade completa do SoFiUSD é esperada até o início de junho, conforme usuários atualizem o aplicativo. A empresa também planeja listar o token em sua primeira parceira de exchange centralizada, a Bullish, para dar suporte a negociação institucional e liquidez.
O lançamento ainda não prova que bancos dominarão stablecoins. Mas mostra que a fase experimental está ficando menor. Em 2026, a disputa passa a ser por distribuição, confiança regulatória e utilidade fora do ambiente puramente cripto.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





