O BIS voltou a pedir coordenação internacional para as regras de stablecoins após o avanço mais lento das discussões globais. O alerta importa porque um mosaico regulatório pode empurrar emissores para jurisdições mais leves e aumentar o risco para pagamentos, liquidez e proteção ao investidor.
O Banco de Compensações Internacionais, o BIS, acendeu um novo alerta para o mercado de stablecoins nesta segunda-feira. Segundo declarações do diretor-geral Pablo Hernández de Cos em evento no Japão, a construção de padrões globais perdeu ritmo no último ano, justamente quando o setor já supera US$ 320 bilhões em valor de mercado e ganha espaço em pagamentos, tesouraria corporativa e tokenização de ativos.
A preocupação central é simples, mas relevante para todo o mercado crypto. Se cada país seguir um caminho regulatório diferente, emissores e plataformas podem migrar para jurisdições mais flexíveis, repetindo a chamada arbitragem regulatória. Na prática, isso dificultaria a supervisão e poderia ampliar riscos em momentos de estresse, principalmente se houver corridas de resgate ou perda de confiança em grandes emissores.
Por que o BIS vê risco de fragmentação
De acordo com reportagem da Reuters citada pela CoinDesk, o presidente do Financial Stability Board e governador do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, já havia sinalizado na semana passada que o avanço das regras internacionais para stablecoins esfriou. Hernández de Cos reforçou a leitura e disse que, sem coordenação, o mercado pode acabar dividido entre blocos regulatórios incompatíveis.
O ponto mais sensível está no desenho econômico desses tokens. Para o BIS, algumas stablecoins se comportam mais como instrumentos financeiros do que como dinheiro em espécie, já que sua estabilidade depende da qualidade das reservas, da eficiência do resgate e da confiança na estrutura do emissor. Quando esse processo falha, o preço pode se afastar do alvo de US$ 1 e contaminar liquidez em outras áreas do mercado.
Entre as salvaguardas discutidas por reguladores estão limites ao pagamento de rendimento, acesso dos emissores a linhas de liquidez de banco central e arranjos parecidos com seguro de depósitos. O debate acontece enquanto gigantes como USDT e USDC continuam concentrando a maior parte do setor, e novos casos de uso seguem aparecendo em remessas, pagamentos e infraestrutura institucional.
Esse pano de fundo ajuda a explicar por que governos e bancos centrais tratam o tema com mais urgência. Nos últimos dias, a discussão sobre rendimento e enquadramento jurídico das stablecoins voltou ao centro do debate em Washington, como o CriptoBR mostrou ao noticiar que a Casa Branca pressiona bancos por yield em stablecoins. Em paralelo, o mercado também acompanha o avanço de infraestrutura em redes públicas, caso do movimento recente em que a Solana entrou no radar de um banco de Singapura para trilhos de stablecoin.
O que muda para o mercado agora
No curto prazo, o alerta do BIS não muda sozinho a operação de emissores ou protocolos, mas aumenta a pressão para que Estados Unidos, Europa e Ásia reduzam divergências antes que o mercado fique grande demais para uma correção coordenada. Esse ponto é especialmente importante porque a tokenização segue acelerando, e stablecoins já funcionam como camada de liquidação para boa parte dessa nova infraestrutura financeira.
Nos EUA, o debate passa pelo Digital Asset Market Clarity Act, que tenta organizar a supervisão federal do setor. O texto já avançou na Câmara e agora depende de negociações no Senado, incluindo pontos delicados sobre DeFi, ética e rendimento. O tema conversa diretamente com outra frente que o site já cobriu, a de que o Congresso dos EUA voltou a tratar tokenização como tema estratégico.
Para o investidor, o recado é que stablecoins seguem essenciais para a infraestrutura do mercado, mas entram em uma fase em que compliance, reservas e jurisdição devem pesar tanto quanto adoção. Para empresas do setor, a mensagem é ainda mais direta: quem quiser disputar a próxima onda de pagamentos e ativos tokenizados provavelmente terá de operar em um ambiente com mais exigências, menos ambiguidade e menor espaço para arbitragem regulatória.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





