A Casa Branca elevou o tom contra bancos que tentam barrar o yield em stablecoins durante as negociações do CLARITY Act. O embate expõe a disputa por depósitos, enquanto o mercado de stablecoins com rendimento cresce muito mais rápido que o restante do setor.
A disputa em torno do CLARITY Act ganhou um novo capítulo nos Estados Unidos. Patrick Witt, diretor executivo do Presidential Advisory Committee on Digital Assets da Casa Branca, atacou publicamente a pressão do setor bancário contra stablecoins com rendimento e disse que a nova rodada de lobby é motivada por “ganância ou ignorância”. Na prática, a fala mostra que o governo quer preservar um meio-termo regulatório, em vez de aceitar uma proibição total sobre yield.
O recado veio num momento delicado. O texto em negociação no Senado tenta conciliar dois lados: de um lado, bancos que temem fuga de depósitos; do outro, empresas cripto que argumentam que stablecoins plenamente lastreadas não devem ser tratadas como contas bancárias tradicionais. Como o CriptoBR mostrou quando o acordo bipartidário avançou no Senado, o compromisso em discussão veta yield passivo sobre saldos, mas mantém espaço para recompensas ligadas a atividade.
Casa Branca endurece discurso contra pressão dos bancos
Segundo a CryptoSlate, Witt afirmou em 17 de abril que é difícil explicar o novo esforço de lobby “como algo diferente de ganância ou ignorância” e resumiu a mensagem aos bancos com um direto “move on”. O comentário sugere frustração crescente com a tentativa de reabrir um tema que já havia produzido concessões relevantes no texto do projeto.
Associações bancárias alegam que mesmo uma permissão limitada para stablecoins com rendimento pode alterar a estrutura do sistema financeiro. A tese é que famílias e empresas teriam incentivo para tirar recursos de depósitos bancários e migrar para versões tokenizadas do dólar, afetando especialmente bancos menores. Essa leitura, porém, bate de frente com um estudo citado pela própria Casa Branca, segundo o qual uma proibição total de yield traria custo líquido de cerca de US$ 800 milhões aos consumidores e faria pouco para proteger a oferta de crédito.
O ponto é relevante porque a disputa já não trata apenas de inovação, mas de quem captura o retorno financeiro do dinheiro parado. Se o investidor puder manter dólares tokenizados com alguma remuneração, o modelo de receita dos bancos tradicionais tende a sofrer mais pressão. Esse pano de fundo ajuda a explicar por que o debate ficou mais agressivo nas últimas semanas.
Mercado corre mais rápido que o Congresso
Enquanto o Senado ainda negocia o texto final, o mercado segue andando. Dados da Messari citados pela CryptoSlate indicam que a oferta de stablecoins com rendimento cresceu 15 vezes mais rápido que o mercado geral de stablecoins nos últimos seis meses. Em outras palavras, a demanda por versões tokenizadas do dólar que entregam retorno já existe, independentemente do impasse político em Washington.
Esse crescimento também reforça a leitura de que o tema deixou de ser periférico. Não se trata mais apenas de um nicho de DeFi, mas de uma frente que pode influenciar pagamentos, tesouraria corporativa e a competição entre bancos e emissores cripto. Em paralelo, vemos outras peças desse tabuleiro se movimentando, como a ofensiva da Stripe em infraestrutura para stablecoins e blockchain, tema abordado nesta matéria recente do CriptoBR.
O relógio legislativo também pesa. A reportagem aponta que o time do senador Thom Tillis ainda negocia a redação final com a equipe de Angela Alsobrooks, enquanto a expectativa é de apresentação formal já na próxima semana. Se o comitê bancário não avançar até o fim de abril, a chance de aprovação em 2026 cai bastante. Isso ajuda a explicar por que o ambiente ficou mais tenso: o mercado cresce, o prazo aperta e ninguém quer ceder terreno na reta final.
Para o setor cripto, a mensagem é clara. Se a Casa Branca sustentar a linha atual, o CLARITY Act pode sair com um desenho menos favorável aos bancos do que Wall Street gostaria. Se a pressão bancária prevalecer, o resultado pode ser uma versão mais restritiva, com impacto direto sobre emissores e produtos atrelados ao dólar digital. Para o investidor brasileiro, vale acompanhar porque essa disputa influencia a direção regulatória do maior mercado de capitais do mundo e pode moldar o futuro das stablecoins globais, inclusive em discussões sobre moedas estáveis fora do eixo do dólar, como mostramos no caso em que a Circle discutiu espaço para uma stablecoin em yuan.
Por enquanto, o impasse não foi resolvido. Mas a fala da Casa Branca mostra que a negociação entrou numa fase mais política e menos técnica, com bancos e empresas cripto disputando a arquitetura do dinheiro digital nos EUA.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





