O Singapore Gulf Bank lançou um serviço de emissão e resgate de USDC na Solana para clientes institucionais e de alta renda, com liquidação 24/7 acima de US$ 100 mil. O movimento aproxima trilhos bancários tradicionais da infraestrutura on-chain e mostra como a disputa por stablecoins está entrando de vez no sistema financeiro.
O Singapore Gulf Bank (SGB), banco digital atacadista apoiado pelo fundo soberano do Bahrein Mumtalakat e pelo Whampoa Group, lançou nesta sexta-feira um serviço de mint e redeem de stablecoins integrado à rede Solana. Na prática, clientes corporativos e de alta renda poderão converter dólares em USDC, e fazer o caminho inverso, diretamente pela estrutura bancária do SGB com liquidação instantânea e funcionamento 24 horas por dia.
A novidade importa porque ataca um gargalo antigo do mercado, a lentidão da compensação internacional em horário bancário. Segundo comunicado reproduzido por veículos internacionais, a operação estreia com suporte a transações acima de US$ 100 mil e com isenção temporária de taxas bancárias e de gas na Solana, uma combinação que tenta acelerar a adoção institucional logo na largada.
Banco tenta virar ponte entre dólar bancário e liquidez on-chain
De acordo com a comunicação do banco, o serviço foi integrado de forma nativa ao SGB Net, rede proprietária lançada em 2025 para liquidação multi-moeda em tempo real. O CEO Shawn Chan afirmou que a proposta é permitir movimento em tempo real entre ativos fiduciários e digitais, melhorando fluxo de caixa, pagamentos e gestão de tesouraria para empresas que operam em múltiplas jurisdições.
O timing também chama atenção. No início de abril, o SGB anunciou entrada na rede de correspondentes do BNY para reforçar a compensação em dólar. Agora, ao acrescentar um trilho on-chain com USDC, o banco tenta se posicionar como uma ponte regulada entre o sistema financeiro legado e a economia digital. É uma tese parecida com a que vem fortalecendo o mercado global de stablecoins, inclusive em debates recentes sobre moedas digitais regionais, como mostramos na matéria sobre a visão da Circle para uma stablecoin em yuan.
O banco afirmou ainda que pretende ampliar o suporte para outros ativos, incluindo USDT, USDe e USDG. Isso sugere que a Solana entrou primeiro menos como aposta exclusiva e mais como trilho inicial por velocidade e custo, o que reforça a competição entre redes por liquidez institucional. Essa corrida já vinha ganhando força no ecossistema, enquanto provedores de infraestrutura ampliam a capacidade da rede, como mostramos na cobertura sobre o feed de baixa latência da DoubleZero para Solana.
Por que a Solana foi escolhida primeiro
Na fase inicial, o SGB decidiu subsidiar operações na Solana por causa da velocidade de liquidação e do custo reduzido. Para um banco que quer oferecer conversão entre fiat e stablecoins em escala institucional, esses dois fatores contam mais do que narrativa. Menor custo operacional ajuda na previsibilidade de tesouraria, e liquidação rápida reduz atrito em fluxos internacionais, sobretudo em pagamentos corporativos e gestão de caixa.
Esse ponto ajuda a entender por que a disputa por stablecoins está cada vez menos restrita às emissoras e cada vez mais concentrada em quem controla distribuição, compliance e integração bancária. Não se trata apenas de emitir um token dolarizado, mas de encaixá-lo numa infraestrutura confiável para entrada e saída de capital. Em outro momento desse movimento, a Western Union anunciou sua própria stablecoin na rede Solana, mostrando como empresas tradicionais tentam ocupar a mesma avenida.
Para o mercado, a leitura é clara. Se mais bancos regulados adotarem serviços nativos de mint e redeem, as stablecoins passam a competir menos como nicho cripto e mais como trilho financeiro global. Isso tende a beneficiar redes com liquidação eficiente, emissores com reservas robustas e instituições capazes de conectar conformidade, custódia e pagamentos numa única experiência.
Por enquanto, o lançamento do SGB ainda é focado em clientes de maior porte e não representa adoção de massa. Mesmo assim, ele oferece um sinal importante, bancos já não estão apenas observando as stablecoins de fora. Em alguns casos, começaram a tratá-las como peça operacional da própria infraestrutura financeira.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





