O Banco Central Europeu alertou ministros da União Europeia contra propostas para afrouxar regras de stablecoins em euro. A preocupação é que emissores com acesso a liquidez do BCE possam drenar depósitos dos bancos e dificultar a condução dos juros.
O Banco Central Europeu entrou em choque com a ideia de acelerar o mercado de stablecoins em euro por meio de regras mais leves para emissores cripto. Segundo a Reuters, o BCE avisou ministros de Finanças da União Europeia, em uma reunião informal em Nicósia, que a proposta poderia reduzir a capacidade de empréstimo dos bancos e tornar mais difícil controlar a política monetária.
O debate importa porque a Europa tenta responder ao domínio das stablecoins em dólar sem abrir uma brecha de risco sistêmico. A discussão ganhou força justamente quando bancos do bloco avançam em iniciativas privadas de dinheiro tokenizado, como a Qivalis, que já reúne 37 bancos para uma stablecoin em euro.
O que estava na mesa
A proposta apresentada pelo think tank Bruegel defendia aliviar exigências de liquidez para emissores de stablecoins e, em certos cenários, permitir acesso a financiamento do BCE. A ideia seria dar musculatura a tokens lastreados em euro, hoje pequenos quando comparados ao mercado de USDT, USDC e outras stablecoins atreladas ao dólar.
Na prática, esse tipo de desenho aproximaria alguns emissores de stablecoins de uma função hoje reservada ao sistema bancário regulado: acesso a liquidez de banco central em momentos de estresse. Para seus defensores, isso ajudaria a evitar que a Europa continue dependente de trilhos digitais dolarizados. Para o BCE, porém, o custo pode ser alto demais.
De acordo com a reportagem, autoridades do banco central argumentaram que stablecoins em euro muito competitivas poderiam puxar depósitos para fora dos bancos tradicionais. Isso elevaria o custo de funding das instituições, reduziria crédito para empresas e famílias e criaria ruído adicional na transmissão da taxa de juros.
Europa quer competir, mas sem copiar os EUA
O impasse expõe uma contradição central da política cripto europeia. O bloco criou o MiCA para dar previsibilidade ao setor, mas as regras também deixaram a emissão de stablecoins mais cara e restrita. Como o CriptoBR mostrou em outra análise, o MiCA tornou stablecoins em euro mais seguras, mas menos agressivas comercialmente.
Esse equilíbrio ficou mais sensível com o avanço regulatório dos Estados Unidos sobre stablecoins. Se tokens em dólar ganham escala global enquanto produtos em euro seguem limitados, empresas europeias podem acabar usando infraestrutura monetária estrangeira em pagamentos, DeFi e liquidação de ativos tokenizados.
Ao mesmo tempo, o BCE tem defendido que o euro digital e soluções de liquidação com dinheiro de banco central devem ocupar parte desse espaço. Em abril, um boletim macroprudencial do próprio banco central discutiu efeitos potenciais de stablecoins em euro sobre mercados de títulos soberanos e reservas de liquidez, sinalizando que o tema já é tratado como questão de estabilidade financeira.
O que muda para o mercado cripto
Para emissores e corretoras, a mensagem é clara: o caminho europeu para stablecoins deve continuar mais regulado e menos permissivo do que o modelo que o mercado cripto gostaria. Isso não impede novos lançamentos, mas limita a chance de um crescimento explosivo baseado em acesso direto à liquidez do banco central.
Para investidores, o ponto não é apenas o tamanho atual do mercado em euro. Como mostrou o CriptoBR, stablecoins fora do dólar ainda representam uma fatia mínima do setor. A disputa agora é sobre quem vai controlar a próxima camada de pagamentos on-chain: bancos, fintechs, emissores cripto ou o próprio banco central.
O resultado provável é uma Europa com stablecoins em euro mais institucionais, mais lentas para ganhar escala e mais próximas de bancos licenciados. Isso pode reduzir risco de corrida e insolvência, mas também deixa espaço para que tokens em dólar continuem dominando liquidez global em exchanges, DeFi e pagamentos internacionais.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





