O consórcio europeu Qivalis passou a reunir 37 instituições financeiras em 15 países para lançar uma stablecoin lastreada em euro. O movimento reforça a disputa por infraestrutura regulada de pagamentos on-chain em uma área ainda dominada por tokens atrelados ao dólar.
O Qivalis, consórcio bancário europeu criado para emitir uma stablecoin denominada em euro, ampliou sua base para 37 instituições financeiras em 15 países, segundo comunicados publicados nesta quarta-feira (20) por bancos participantes, incluindo Nordea e Banco Sabadell. A iniciativa mira o lançamento de uma moeda estável regulada sob o MiCA, com supervisão ligada ao Banco Central Holandês.
Na prática, o projeto tenta ocupar um espaço que ainda é pequeno no mercado cripto: stablecoins não dolarizadas. Embora a Europa tenha avançado em regras com o MiCA, o uso de stablecoins em euro continua marginal perto de USDT e USDC, que concentram a liquidez global de trading, pagamentos e liquidação on-chain.
Consórcio ganha escala bancária
O Banco Sabadell afirmou que a entrada de 25 novas organizações levou o Qivalis a 37 membros, com presença em 15 países europeus. A lista inclui nomes como ABN AMRO, Rabobank, Nordea, Intesa Sanpaolo, Erste Group, Bank of Ireland e Swedbank, além dos membros fundadores BNP Paribas, ING, UniCredit, CaixaBank, BBVA, Danske Bank, SEB, KBC, DekaBank, DZ BANK, Raiffeisen Bank International e Banca Sella.
O objetivo declarado é criar uma stablecoin em euro com respaldo 1:1, voltada principalmente a pagamentos, liquidação de instrumentos financeiros, tesouraria corporativa e infraestrutura institucional. A estrutura se diferencia de projetos puramente cripto porque nasce de bancos regulados e busca autorização como instituição de dinheiro eletrônico.
A agenda conversa com outra frente recente da Europa: transformar regras em infraestrutura prática. Como o CriptoBR mostrou na análise sobre stablecoins em euro sob o MiCA, a regulação trouxe segurança jurídica, mas ainda não resolveu o principal problema de mercado: falta de liquidez e distribuição.
Por que os bancos querem uma stablecoin em euro
O ponto central é a chamada “dolarização digital”. Hoje, a maior parte dos fluxos em stablecoins passa por tokens ligados ao dólar, mesmo quando usuários, empresas e bancos estão fora dos Estados Unidos. Para instituições europeias, isso cria dependência de infraestrutura monetária estrangeira em pagamentos e mercados tokenizados.
Segundo a Nordea, a participação no Qivalis está ligada ao fortalecimento da autonomia financeira europeia e ao desenvolvimento de infraestrutura bancária para pagamentos transfronteiriços, liquidação mais eficiente e oportunidades em finanças digitais. O argumento é institucional: se stablecoins virarem trilhos relevantes de dinheiro programável, a Europa quer um padrão próprio e compatível com suas regras.
Esse movimento também se conecta à expansão de ativos tokenizados. A demanda por liquidação 24/7 cresce à medida que bancos, gestoras e plataformas passam a testar títulos, fundos e ações em redes blockchain. Em paralelo, o CriptoBR cobriu nesta manhã que a SEC prepara uma isenção para ações tokenizadas, sinalizando que a competição por infraestrutura regulada não está restrita à Europa.
Fireblocks será peça de infraestrutura
Em abril, o Qivalis já havia escolhido a Fireblocks como parceira de infraestrutura para emissão, distribuição, custódia e gestão de tesouraria da futura stablecoin. Como o CriptoBR noticiou na cobertura sobre 12 bancos escolhendo a Fireblocks para a stablecoin em euro, o plano divulgado na época previa lançamento no segundo semestre de 2026, sujeito à autorização do Banco Central Holandês.
A Fireblocks afirmou que o projeto será desenhado para controles de compliance, integração de AML/KYC, triagem de sanções e relatórios auditáveis. Esses elementos são importantes porque stablecoins bancárias precisam funcionar dentro de regras financeiras tradicionais, não apenas dentro de smart contracts.
Para o mercado cripto, o avanço do Qivalis tem duas leituras. A primeira é positiva: mais emissores regulados podem ampliar o uso de blockchain em pagamentos e liquidação institucional. A segunda é competitiva: uma stablecoin bancária em euro ainda precisará provar que consegue gerar liquidez real em exchanges, DeFi e aplicações corporativas, onde o dólar segue com vantagem.
A corrida por stablecoins reguladas também tem efeito fora da Europa. Nos Estados Unidos, bancos e emissores privados seguem disputando o desenho das regras para tokens de pagamento, como o CriptoBR acompanhou na cobertura sobre bancos tentando frear a lei de stablecoins nos EUA. O pano de fundo é o mesmo: quem controlar a camada de dinheiro digital pode capturar parte relevante dos fluxos financeiros on-chain.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





