Stablecoins atreladas a moedas fora do dólar cresceram em valor absoluto, mas seguem com apenas 0,24% do mercado, segundo dados citados pelo CoinDesk. O dado mostra que projetos em euro, iene e outras moedas ainda não conseguiram quebrar o efeito de rede de USDT e USDC.
As stablecoins fora do dólar continuam quase invisíveis no mercado cripto, mesmo depois de anos de lançamentos por bancos, fintechs e emissores regulados. Segundo dados da Artemis citados pelo CoinDesk, a oferta combinada de stablecoins em euro, dólar canadense, iene, dólar de Singapura e outras moedas chegou a cerca de US$ 771 milhões em abril de 2026, mas sua participação caiu para 0,24% do setor.
Na prática, isso significa que tokens lastreados no dólar ainda controlam 99,76% do mercado de stablecoins. O contraste é importante porque a indústria vem tentando criar alternativas locais para pagamentos, câmbio, remessas e liquidação institucional, mas a liquidez on-chain segue concentrada em USDT, USDC e outros ativos denominados em dólar.
O problema é liquidez, não só regulação
A tese central é simples: stablecoin precisa de uso recorrente para virar dinheiro de fato. Sem profundidade de mercado, pares líquidos em corretoras, integração em DeFi e aceitação por empresas, o token até pode existir, mas não vira a unidade de conta preferida dos usuários.
O CoinDesk aponta que a dominância do dólar criou um ciclo difícil de quebrar. Como há mais liquidez em stablecoins dolarizadas, há mais volume; como há mais volume, mais plataformas integram esses ativos; e, com mais integrações, a liquidez volta a crescer. Esse efeito de rede deixa stablecoins em moedas locais em desvantagem, mesmo quando têm uma proposta regulatória mais alinhada a determinados mercados.
O tema conversa diretamente com a corrida recente por stablecoins regionais. Nesta quarta-feira, o CriptoBR mostrou que a Qivalis reuniu 37 bancos para uma stablecoin em euro, uma iniciativa que tenta dar escala bancária a um segmento ainda pequeno. O novo dado, porém, mostra o tamanho do desafio: o mercado pode estar disposto a experimentar moedas locais, mas ainda precifica liquidez global em dólar.
Tesouros tokenizados reforçam a vantagem do dólar
Outro ponto relevante é o colateral. Stablecoins em dólar se beneficiam do mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, que é profundo, líquido e usado como reserva por emissores. Segundo o levantamento, a dívida pública americana tokenizada soma cerca de US$ 15,4 bilhões, enquanto títulos governamentais não americanos tokenizados ficam perto de US$ 1,4 bilhão.
Essa diferença importa porque o emissor de uma stablecoin precisa manter reservas confiáveis e resgatáveis. Quando o colateral também rende juros e tem liquidez global, a operação fica mais eficiente. É por isso que fundos tokenizados e instrumentos de renda fixa on-chain viraram parte central da disputa por stablecoins, como já apareceu na cobertura sobre a estratégia da BlackRock com fundos tokenizados.
O movimento também se conecta à tokenização de ativos tradicionais. A possível isenção da SEC para ações tokenizadas, por exemplo, mostra que reguladores e instituições estão tentando levar mercados financeiros para trilhos blockchain. Mas, por enquanto, a infraestrutura mais líquida continua orbitando o dólar.
O que isso muda para o mercado
Para usuários de varejo, a conclusão é que stablecoins em moeda local ainda tendem a funcionar melhor como produtos de nicho: remessas específicas, pagamentos regionais, acesso a câmbio ou aplicações reguladas em cada país. Para traders e protocolos DeFi, o dólar segue como o padrão porque concentra pares, liquidez e integração.
Isso não significa que stablecoins fora do dólar estejam condenadas. O avanço de regras como MiCA na Europa, a entrada de bancos e a expansão de pagamentos on-chain podem criar bolsões de adoção. O ponto é que a barra para competir globalmente ficou mais alta: não basta emitir um token estável, é preciso construir mercado, colateral, distribuição e utilidade ao mesmo tempo.
Enquanto isso não acontece, a promessa de um sistema cripto multicurrency continua mais forte no discurso do que nos dados. O dólar, que no sistema financeiro tradicional perde espaço lentamente ao longo das décadas, parece ainda mais dominante quando a disputa acontece on-chain.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





