A Aptos ativou o Confidential APT na mainnet após a proposta AIP-143 ser executada com apoio praticamente unânime. O recurso usa provas de conhecimento zero para ocultar saldos e valores transferidos, mas mantém endereços visíveis e prevê auditoria autorizada para casos de compliance.
A Aptos ativou na mainnet uma versão confidencial do token APT, em uma tentativa de resolver um dos dilemas mais antigos das blockchains públicas: preservar a privacidade financeira sem abrir mão da verificabilidade das transações.
O recurso, chamado Confidential APT, foi habilitado após a proposta de governança AIP-143 ser executada. Segundo dados do GovScan, a votação terminou com 100% de apoio entre os votos favoráveis registrados, quórum de 24,97% e participação de 25,19%.
Como funciona o Confidential APT
Na prática, o Confidential APT permite que usuários escolham manter saldos e valores de transferências criptografados on-chain. A rede continua validando se a transação é correta por meio de compromissos criptográficos e provas de conhecimento zero, sem expor publicamente o valor movimentado.
A documentação da AIP-143 afirma que remetente e destinatário continuam visíveis, enquanto os montantes ficam ocultos para observadores públicos. Esse desenho diferencia a solução de moedas de privacidade mais fechadas, como Monero, porque preserva uma camada de auditabilidade na própria rede.
O modelo usa criptografia homomórfica, uma variante de Twisted ElGamal, para atualizar saldos criptografados sem revelar os valores subjacentes. As provas ZK verificam se o remetente tem saldo suficiente, se o valor está dentro de limites válidos e se nenhum token foi criado ou destruído no processo.
O avanço reforça uma tendência que já aparece em outras frentes do mercado. Como o CriptoBR mostrou na cobertura sobre ZK-proofs no ecossistema Bitcoin, a disputa por privacidade verificável deixou de ser apenas uma pauta técnica e passou a tocar adoção institucional, compliance e segurança de usuários.
Privacidade sem apagar o compliance
Em entrevista ao Cointelegraph, Sherry Xiao, engenheira fundadora da Aptos Labs e uma das autoras da proposta, disse que o recurso busca reduzir riscos como perfilamento de carteiras, pressão social por saldos visíveis e golpes direcionados contra usuários com patrimônio exposto.
O mesmo problema aparece no ambiente corporativo. Empresas que usam blockchains públicas para tesouraria, folha de pagamento ou liquidações podem acabar revelando salários, estratégias comerciais e movimentações internas a concorrentes, recrutadores e analistas on-chain.
Segundo a proposta, o Confidential APT também prevê mecanismos de divulgação seletiva. Auditores autorizados podem receber capacidade de acesso a dados de transações em situações específicas, como investigações ou exigências regulatórias, desde que o processo seja aprovado por governança on-chain.
Esse ponto é central para a narrativa da Aptos: o projeto tenta se posicionar entre a transparência total das blockchains públicas e a privacidade absoluta, buscando um meio-termo que seja utilizável por empresas sem transformar a rede em uma caixa-preta.
Por que isso importa para o mercado
O lançamento chega em um momento em que a infraestrutura cripto tenta atrair mais aplicações financeiras reais, mas ainda enfrenta resistência de empresas que não querem operar em ambientes onde cada saldo e pagamento fica permanentemente exposto.
Se a solução ganhar uso, a Aptos pode abrir espaço para casos como tesouraria on-chain, pagamentos corporativos, grants, folha de pagamento, aplicações DeFi com menor exposição de posições e novos produtos que dependem de privacidade parcial.
Ao mesmo tempo, a adoção não deve ser imediata. A própria Xiao afirmou que indivíduos podem aderir mais rápido do que empresas, já que integrações corporativas dependem de rotinas de impostos, controles internos e políticas de compliance. Em outras palavras, o recurso técnico está ativo, mas a prova de mercado ainda precisa acontecer.
O movimento também conversa com a busca por redes de alto desempenho capazes de suportar aplicações financeiras mais complexas. Em julho, o CriptoBR já havia destacado como executivos da Aptos veem a tokenização de ativos como uma frente de crescimento relevante para o setor.
Para usuários comuns, a principal mudança é simples: caso carteiras e aplicativos integrem o recurso, será possível movimentar APT com menos exposição pública de saldos e valores. Para empresas, a promessa é ainda maior: usar trilhos públicos sem transformar cada pagamento em informação competitiva aberta.
A novidade não elimina riscos. Endereços continuam visíveis, auditoria depende de governança e a implementação precisa provar robustez em produção. Ainda assim, o Confidential APT coloca a Aptos no centro de uma discussão que tende a crescer: como tornar blockchains públicas úteis para finanças reais sem obrigar todo mundo a operar com transparência total.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





