A Visa adicionou Arc, Base, Canton, Polygon e Tempo ao seu piloto global de liquidação com stablecoins, elevando o suporte para nove blockchains. O programa atingiu run rate anualizado de US$ 7 bilhões, alta de 50% no trimestre, e reforça a disputa por infraestrutura de pagamentos on-chain.
A Visa ampliou nesta quarta-feira (29) seu piloto global de liquidação com stablecoins para cinco novas blockchains, em mais um sinal de que o uso de dólares tokenizados está saindo do campo experimental e entrando na infraestrutura de pagamentos. A rede agora inclui Arc, Base, Canton, Polygon e Tempo, além de Ethereum, Solana, Avalanche e Stellar.
Segundo comunicado da própria Visa, o programa alcançou um run rate anualizado de US$ 7 bilhões em liquidações com stablecoins, crescimento de 50% em relação ao trimestre anterior. Na prática, a iniciativa permite que emissores e adquirentes liquidem transações com stablecoins em vez de depender apenas dos trilhos bancários tradicionais, que podem levar dias em operações internacionais.
O que muda com as novas blockchains
A expansão reforça uma estratégia multichain. Arc, rede criada pela Circle, mira dinheiro programável e atividade econômica on-chain. Base, apoiada pela Coinbase, entra como opção de baixo custo e alta performance. Canton foca instituições reguladas e privacidade configurável. Polygon já tem forte presença em pagamentos, enquanto Tempo, projeto ligado à Stripe, foi desenhada para movimentação eficiente de liquidez em stablecoins.
Rubail Birwadker, chefe global de produtos de crescimento e parcerias estratégicas da Visa, afirmou no comunicado que os parceiros da empresa “estão construindo em um mundo multichain” e esperam opções que reflitam essa realidade. A tese é simples: se a liquidez em stablecoins está espalhada por diferentes redes, a camada de liquidação precisa conversar com mais de um ecossistema.
O movimento também dialoga com uma tendência que o CriptoBR vem acompanhando nas últimas semanas: empresas tradicionais usando stablecoins como ponte operacional, não apenas como ativo de negociação. Na terça-feira, mostramos como Visa e WeFi levaram stablecoins a bancos on-chain, em uma frente voltada a cartões e infraestrutura financeira.
Stablecoins ganham papel de infraestrutura
Stablecoins são tokens que buscam manter paridade com moedas fiduciárias, como o dólar. Para pagamentos, o atrativo está na liquidação quase em tempo real, operação 24/7 e possibilidade de reduzir fricções em transferências internacionais. Para instituições, porém, a escolha da blockchain importa: custo, velocidade, liquidez, privacidade e compliance mudam de rede para rede.
É por isso que a adição de Canton chama atenção no pacote. A rede foi desenhada para casos institucionais regulados, enquanto Base, Polygon e Tempo miram uma camada mais ampla de pagamentos e comércio digital. Arc, por sua vez, reforça a aposta da Circle em uma infraestrutura nativa para USDC e dinheiro programável.
A Visa afirma que os pilotos vêm sendo construídos ao longo de anos, com rollouts regionais na América Latina, Europa, Ásia-Pacífico e CEMEA, além de programas de cartões ligados a stablecoins em mais de 50 países. Esse contexto é importante porque mostra uma adoção gradual, diferente do ciclo de hype visto em parte do mercado cripto.
Por que isso importa para o mercado
O avanço da Visa pressiona fintechs, bancos e redes de pagamento a tratarem stablecoins como infraestrutura competitiva. Se uma empresa global consegue liquidar parte do fluxo com tokens em dólar e reduzir dependência de janelas bancárias, outros participantes tendem a testar modelos semelhantes para não ficar para trás.
Ao mesmo tempo, o crescimento não elimina riscos. Stablecoins dependem de emissores, reservas, regras locais e integração com sistemas financeiros tradicionais. Reguladores continuam atentos, especialmente em temas como prevenção à lavagem de dinheiro, proteção ao consumidor e estabilidade de mercados. Como reportamos em alerta do BIS sobre fragmentação nas regras de stablecoins, a falta de padrões globais ainda pode dificultar uma adoção uniforme.
Também há um debate sobre volume real. Embora o piloto da Visa tenha alcançado US$ 7 bilhões anualizados, o mercado on-chain mais amplo ainda oscila conforme atividade especulativa, uso em DeFi e demanda por pagamentos. Nesta manhã, o CriptoBR mostrou que stablecoins cresceram em oferta, mas perderam força em volume on-chain, sinal de que a adoção institucional pode avançar em ritmo diferente do varejo cripto.
Para o leitor brasileiro, o ponto central é que stablecoins estão deixando de ser apenas “dólar cripto” em corretoras. Elas estão virando peça de liquidação para empresas globais, bancos digitais, cartões e pagamentos transfronteiriços. A expansão da Visa para nove blockchains mostra que a próxima disputa pode não ser apenas qual stablecoin vence, mas quais redes conseguirão sustentar liquidez, compliance e velocidade em escala global.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





