O mercado de stablecoins segue crescendo em usuários e capitalização, mas o volume mensal transferido on-chain perdeu força nos últimos 30 dias. Dados da RWA.xyz mostram mais de 247 milhões de holders e quase US$ 300 bilhões em valor de mercado, indicando que os dólares tokenizados estão sendo acumulados mesmo com menor giro nas redes.
O mercado de stablecoins entrou em uma fase mais seletiva: há mais usuários e mais capital parado em dólares tokenizados, mas menos dinheiro circulando pelas redes. Dados da RWA.xyz nesta quarta-feira (29) mostram uma capitalização próxima de US$ 300 bilhões, 247,3 milhões de holders e 56,2 milhões de endereços ativos mensais, enquanto o volume mensal de transferências recuou 7,41% em 30 dias, para US$ 9,52 trilhões.
A leitura é importante porque stablecoins viraram a principal ponte entre o mercado cripto e o dólar digital. Quando a capitalização sobe, mas o volume transacionado desacelera, o sinal não é necessariamente de fuga: pode indicar dinheiro esperando oportunidade, uso mais concentrado em algumas redes ou menor apetite por movimentações especulativas no curto prazo.
Capital fica, mas o giro desacelera
O painel da RWA.xyz mostra a Tether na liderança do setor, com cerca de US$ 178,9 bilhões em valor total e quase 60% de participação de mercado entre plataformas listadas. A Circle aparece em segundo lugar, com aproximadamente US$ 72,6 bilhões, enquanto pontes, emissores menores e protocolos como Sky, Ethena e Paxos disputam fatias bem menores do mercado.
O dado chama atenção porque reforça uma divisão entre adoção e atividade. Mais carteiras continuam segurando stablecoins, mas isso não se transforma automaticamente em transferências maiores. Na prática, o investidor pode estar mantendo saldo em USDT, USDC ou DAI para proteção cambial, liquidez em exchanges, operações DeFi pontuais ou simples espera por uma entrada melhor em Bitcoin e altcoins.
O movimento também conversa com a tendência recente de integração entre stablecoins e finanças tradicionais. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre Visa e WeFi levando stablecoins a bancos on-chain, empresas de pagamentos e infraestrutura financeira seguem tentando transformar esses tokens em trilhos de liquidação, não apenas em ferramenta de trading.
USDT e USDC seguem dominando
A concentração em poucos emissores continua sendo um ponto central. A Tether mantém a maior base de usuários e liquidez, enquanto a Circle preserva relevância institucional com USDC. Já protocolos de stablecoins sintéticas e modelos com maior complexidade, como Ethena, aparecem mais sensíveis a saídas e mudanças de apetite por risco.
Reportagem distribuída pelo Cointelegraph na terça-feira citou um recorte em que o volume de transferências havia caído 19,18% em 30 dias, para US$ 8,31 trilhões, mesmo com alta na oferta, nos holders e nos endereços ativos. O painel atualizado da RWA.xyz mostra números diferentes no dia seguinte, mas a mensagem principal segue parecida: o mercado cresce em estoque, enquanto o uso transacional oscila.
Essa diferença entre estoque e fluxo ajuda a explicar por que stablecoins são acompanhadas de perto por gestores e analistas on-chain. Elas funcionam como “caixa” dentro do ecossistema: quando o saldo total aumenta, pode haver liquidez pronta para entrar em ativos de risco; quando o volume cai, o mercado pode estar menos disposto a girar capital de forma agressiva.
Por que isso importa para o investidor
Para o leitor brasileiro, stablecoins continuam relevantes por três motivos: acesso ao dólar, liquidez global e uso em aplicações on-chain. Mesmo sem uma explosão de volume, o crescimento de holders mostra que esses ativos seguem ganhando função prática, especialmente em países onde dólar digital é usado para proteção, remessas ou acesso a serviços cripto.
O ponto de atenção é que nem toda stablecoin carrega o mesmo risco. Modelos lastreados em caixa e títulos públicos têm dinâmica diferente de tokens sintéticos ou dependentes de estratégias DeFi. Esse debate ficou mais evidente em análises recentes sobre as regras da MiCA para stablecoins em euro e sobre a aposta de grandes empresas em pagamentos com cripto.
No curto prazo, a desaceleração do volume sugere um mercado menos eufórico, mas não necessariamente menor. O capital segue dentro do sistema. A pergunta agora é se esses dólares tokenizados voltarão a girar com força em DeFi, pagamentos e exchanges — ou se ficarão parados como reserva de liquidez enquanto o mercado espera um novo catalisador.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





