A Visa iniciou um teste com a Brale para avaliar liquidação institucional com a stablecoin SBC, lastreada em dólar, no Canton Network. O foco é combinar liquidação programável com controles de privacidade para bancos, fintechs e empresas de pagamento.
A Visa anunciou, em comunicado publicado em 4 de junho, uma colaboração com a Brale para testar liquidação baseada em stablecoin no Canton Network, em mais um passo da disputa para levar trilhos cripto ao centro dos pagamentos institucionais. O experimento usa a SBC, uma stablecoin lastreada em dólar emitida pela Brale, e foi apresentado como uma prova de conceito para fluxos de liquidação que exigem velocidade, programação e privacidade.
O ponto central da iniciativa é que instituições financeiras querem usar blockchain sem expor dados sensíveis de liquidação para todo o mercado. Segundo a Visa, o Canton foi escolhido justamente por permitir que participantes transacionem em uma infraestrutura compartilhada enquanto limitam a visibilidade de detalhes da operação a quem realmente participa dela.
O que a Visa quer testar
O teste vai avaliar se a SBC pode funcionar como mais uma opção de stablecoin para liquidação institucional. Na prática, a Visa quer entender como uma rede com arquitetura de privacidade pode apoiar pagamentos entre empresas, bancos e processadores sem abrir mão de requisitos de compliance.
A companhia já vinha expandindo seu piloto de liquidação com stablecoins desde 2021. Em abril, a Visa informou que adicionaria novas blockchains ao programa, incluindo Canton, Base, Polygon, Tempo e Arc, em um piloto que já havia alcançado run rate anualizado de US$ 7 bilhões. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a expansão da Visa para 9 blockchains, a tese é criar uma camada comum de liquidação para parceiros que operam em múltiplas redes.
Agora, o recorte é mais específico: testar uma stablecoin nativa do Canton em fluxos que podem exigir sigilo operacional. Isso importa porque liquidação institucional envolve informações como contraparte, volume, timing e obrigações financeiras que bancos nem sempre podem deixar visíveis em redes públicas tradicionais.
Por que o Canton entra na história
O Canton Network se posiciona como uma blockchain voltada a instituições reguladas. Diferente de redes públicas em que grande parte dos dados pode ser auditada por qualquer observador, o Canton busca preservar privacidade em transações específicas sem eliminar a ideia de infraestrutura compartilhada.
Esse desenho conversa com uma demanda que cresce entre bancos e empresas de pagamento: usar stablecoins para liquidação mais rápida, inclusive fora do horário bancário tradicional, mas com controles compatíveis com auditoria, regras internas e supervisão regulatória.
A Brale entra como fornecedora de infraestrutura de stablecoins. A empresa opera emissão, resgate, compliance, tesouraria e interoperabilidade por APIs, mirando clientes corporativos que querem lançar ou operar moedas digitais lastreadas em fiat.
Stablecoins viram infraestrutura de pagamento
A movimentação da Visa acontece em uma semana em que o setor de pagamentos voltou a acelerar a adoção de stablecoins. A Mastercard também ampliou suporte a liquidação com ativos como USDC, PYUSD e RLUSD, tema já abordado pelo CriptoBR na cobertura sobre a liquidação global com stablecoins.
Também há pressão competitiva de fintechs e empresas de remessa. Nos últimos dias, o mercado viu a MoneyGram lançar a MGUSD na Stellar e a Bybit levar a stablecoin da Western Union ao mercado cripto. O padrão é claro: stablecoins deixaram de ser apenas ferramenta de trading e passaram a disputar funções de liquidação, tesouraria e pagamentos internacionais.
Para o leitor, a notícia não significa que consumidores verão a SBC em cartões ou apps da Visa imediatamente. O anúncio ainda está no campo de prova de conceito. O impacto está no bastidor: se testes desse tipo avançarem para produção, stablecoins privadas e compatíveis com regras institucionais podem se tornar parte da infraestrutura invisível que move dinheiro entre empresas.
O risco está na execução
Apesar do avanço, o caminho ainda depende de escala, liquidez, integração com sistemas legados e aceitação regulatória. Stablecoins corporativas precisam provar que conseguem entregar liquidação eficiente sem criar novos pontos de risco operacional, concentração ou opacidade excessiva.
O experimento da Visa com a Brale, portanto, é menos sobre hype de token e mais sobre arquitetura de mercado. A grande pergunta é se blockchains com privacidade seletiva conseguem atender instituições reguladas sem perder os ganhos de interoperabilidade que tornaram as stablecoins atraentes no primeiro lugar.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





