A Mastercard vai ampliar sua rede de liquidação para aceitar stablecoins reguladas como USDC, PYUSD, RLUSD, USDG, USDP e SoFiUSD. A mudança permite liquidação intradiária, aos fins de semana e feriados, levando o uso de tokens de dólar para a infraestrutura tradicional de pagamentos.
A Mastercard anunciou nesta quarta-feira (3) uma ampliação relevante de sua infraestrutura de liquidação global, com suporte a stablecoins reguladas em dólar e a janelas de liquidação fora do horário bancário tradicional. A iniciativa mira emissores e adquirentes que precisam movimentar valor de forma mais rápida, inclusive em fins de semana e feriados.
Segundo o CoinDesk, a rede passará a trabalhar com USDC, PYUSD, USDG, USDP, RLUSD e SoFiUSD, ao lado dos processos fiduciários já existentes. A lista também inclui suporte a redes como Ethereum, Solana, Polygon, Base, Arbitrum e XRP Ledger, indicando que a empresa quer tratar blockchains públicas como trilhos complementares de liquidação, e não apenas como ambiente de negociação cripto.
Por que a decisão importa
A autorização de uma compra no cartão costuma parecer instantânea para o consumidor, mas a liquidação entre bancos, adquirentes e demais participantes ainda depende de janelas operacionais, lotes e horários bancários. Ao oferecer liquidação intradiária e on-chain, a Mastercard tenta aproximar a infraestrutura de cartões de um modelo 24/7, no qual o dinheiro pode se mover com menos espera e maior previsibilidade de caixa.
Esse ponto é especialmente importante para pagamentos internacionais, tesouraria corporativa e empresas que lidam com múltiplas moedas. Stablecoins já são usadas há anos por traders, mas a disputa agora está no uso operacional: liquidação, remessas, pagamentos B2B e gestão de liquidez. É a mesma tendência que apareceu quando a SoFi levou sua stablecoin bancária a milhões de usuários e quando a Coinbase reforçou o papel do USDC em mercados on-chain.
De acordo com o The Block, ARQ, CBW Bank, Cross River, Lead Bank e Nuvei estão entre os primeiros participantes esperados nos Estados Unidos e na América Latina. A expansão deve continuar ao longo de 2026, sujeita a regras locais e à entrada de novos parceiros e stablecoins reguladas.
Stablecoins saem do nicho cripto
A movimentação também mostra que as grandes redes de pagamento preferem incorporar stablecoins aos seus próprios sistemas em vez de ignorar a tecnologia. A Mastercard já vinha avançando nesse tema por meio de parcerias e infraestrutura dedicada, incluindo a compra da BVNK, tema que o CriptoBR acompanhou na matéria sobre a aquisição da plataforma de stablecoins por US$ 1,8 bilhão.
O movimento aumenta a pressão competitiva sobre bancos, fintechs e processadores que ainda dependem de liquidação em horários restritos. Para empresas, a promessa é reduzir fricção em pagamentos sensíveis ao tempo. Para emissores de stablecoins, é uma vitrine institucional: entrar no trilho de uma rede global como a Mastercard ajuda a transformar tokens de dólar em peças de infraestrutura financeira.
O desafio continua sendo regulatório e operacional. A Mastercard fala em stablecoins reguladas, interoperabilidade e preservação de controles de segurança, fraude e disputa. Ou seja, a aposta não é trocar o sistema tradicional por cripto puro, mas plugar ativos tokenizados em uma rede que já opera com padrões de compliance e proteção ao consumidor.
Para o mercado cripto, o sinal é claro: stablecoins deixaram de ser apenas “dinheiro parado” em exchanges. Elas estão virando camada de liquidação para instituições que precisam de velocidade, previsibilidade e funcionamento contínuo. A próxima etapa será medir se bancos e adquirentes vão usar essa opção em escala ou se a novidade ficará restrita a pilotos e corredores específicos.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





