Stripe e Swift aceleraram movimentos em blockchain e stablecoins na mesma semana, reforçando a disputa por quem controla a próxima camada de pagamentos globais. A briga deixou de ser apenas sobre emitir tokens e passou a envolver carteiras, aceitação em lojistas e liquidação entre bancos.
A disputa pela infraestrutura dos pagamentos digitais ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (17), depois que Stripe e Swift avançaram em frentes diferentes, mas com o mesmo objetivo: controlar a distribuição de dinheiro tokenizado em escala global.
Segundo o CoinDesk, especialistas do setor veem os movimentos recentes como um sinal de que stablecoins e redes baseadas em blockchain estão deixando de ser uma aposta paralela do mercado cripto para virar parte da estratégia central de grandes empresas financeiras. Para o leitor, o ponto principal é simples: a competição agora é por quem será o trilho padrão por trás de carteiras, pagamentos em lojas e liquidação internacional.
Stripe mira a base de usuários do PayPal
A Stripe apareceu no centro das atenções após uma oferta não solicitada de US$ 53 bilhões pelo PayPal, feita em conjunto com a Advent International, segundo relatos citados pela imprensa internacional. A leitura de mercado é que o negócio, se avançar, daria à Stripe acesso a uma das maiores bases de carteiras de consumo do mundo.
O PayPal informou mais de 439 milhões de contas ativas e processou US$ 1,79 trilhão em pagamentos em 2025, de acordo com dados citados pelo CoinDesk. A Stripe, por sua vez, já tem forte presença entre lojistas e desenvolvedores, além de iniciativas próprias em stablecoins. A combinação aproximaria as duas pontas: quem vende e quem paga.
Esse é o mesmo pano de fundo que já vinha aparecendo em outras iniciativas do setor. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a plataforma de stablecoins da Visa para bancos, as grandes redes de pagamento estão tentando transformar stablecoins em infraestrutura, não apenas em produto de nicho.
Swift leva blockchain para liquidação bancária
Do outro lado, a Swift, cooperativa usada por mais de 11.500 instituições financeiras, avançou com um ledger baseado em blockchain para pagamentos transfronteiriços. Em comunicado recente, a rede afirmou que 17 bancos de seis continentes se preparam para testar transações ao vivo com depósitos tokenizados, com disponibilidade 24/7 e maior eficiência de liquidez.
A Swift também vinha trabalhando com mais de 40 instituições na fase de desenho do projeto. Na prática, a proposta é permitir que bancos usem uma camada compartilhada para coordenar pagamentos internacionais sem abandonar o ambiente regulado do sistema financeiro tradicional.
A diferença em relação à Stripe é o ponto de partida. Enquanto a fintech tenta aproximar lojistas, consumidores e stablecoins, a Swift quer preservar seu papel como infraestrutura bancária global em um mundo no qual depósitos tokenizados e liquidação programável ganham espaço.
Stablecoins viram disputa de distribuição
O recado mais importante para o mercado cripto é que a vantagem competitiva pode não estar apenas na tecnologia do token. Executivos ouvidos pelo CoinDesk argumentam que stablecoins já provaram parte de sua utilidade; agora, a disputa está em quem consegue fazer esses ativos chegarem ao maior número de usuários, comerciantes e instituições.
Essa mudança explica por que empresas tradicionais não querem apenas integrar USDC, USDT ou outro ativo existente. Muitas preferem controlar a própria experiência, seja por meio de uma stablecoin própria, uma carteira dominante ou uma rede de liquidação integrada ao core financeiro.
O movimento dialoga com tendências recentes acompanhadas pelo CriptoBR, incluindo o avanço do USDC em volumes monitorados pela Visa e a adoção de padrões de pagamento para agentes de IA, como vimos na cobertura sobre Visa e Mastercard no padrão x402.
O que muda para o mercado cripto
Para usuários finais, nada muda de forma imediata. A maior parte dos pagamentos do dia a dia ainda passa por trilhos bancários e cartões tradicionais. Mas, nos bastidores, bancos, fintechs e redes globais estão redesenhando a camada de liquidação para competir em custo, velocidade e disponibilidade.
O risco para o setor cripto é que essa institucionalização também concentre poder. Se stablecoins virarem infraestrutura de massa, a distribuição pode ficar nas mãos de poucos players com acesso a lojistas, carteiras e bancos. Ao mesmo tempo, a entrada desses grupos tende a aumentar a legitimidade da tecnologia e acelerar casos de uso fora das exchanges.
Por isso, a semana foi relevante: Stripe e Swift não estão apenas testando blockchain. Elas estão tentando definir quem controla o caminho por onde o dinheiro digital vai circular nos próximos anos.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





