Dados citados pela Dune indicam que o USDT movimentou cerca de US$ 95 bilhões em pagamentos comerciais identificados no primeiro semestre de 2026, contra US$ 14 bilhões do USDC. O recorte reforça uma divisão cada vez mais clara: Tether domina pagamentos e remessas, enquanto Circle ganha força em DeFi e trading on-chain.
O mercado de stablecoins está deixando de ser apenas uma disputa por capitalização total e passando a mostrar uma divisão por uso. Segundo dados da Dune citados pelo Cointelegraph, o USDT, da Tether, liquidou cerca de US$ 95 bilhões em pagamentos comerciais identificados no primeiro semestre de 2026, quase sete vezes os US$ 14 bilhões atribuídos ao USDC, da Circle, na mesma categoria.
A leitura é relevante porque as duas maiores stablecoins do mercado parecem ocupar funções diferentes dentro da economia cripto. O USDT segue mais forte em pagamentos, remessas e fluxos entre empresas, enquanto o USDC aparece com maior tração em DeFi, trading e liquidez em redes como Base e Ethereum. Em vez de uma guerra direta por todos os casos de uso, o setor começa a se organizar em trilhas mais especializadas.
USDT concentra pagamentos comerciais e B2B
O dado mais forte do levantamento está nos pagamentos comerciais identificados. No primeiro semestre, o USDT teria processado aproximadamente US$ 95 bilhões nessa categoria, contra US$ 14 bilhões do USDC. No recorte de pagamentos business-to-business, a dominância também é ampla: o USDT respondeu por cerca de 92% de um volume total estimado em US$ 48 bilhões.
Essa força ajuda a explicar por que a Tether continua tão relevante mesmo em um ambiente de maior pressão regulatória sobre stablecoins. Para usuários e empresas que querem movimentar dólar digital com rapidez, especialmente fora dos Estados Unidos, a liquidez e a aceitação do USDT ainda pesam mais do que a narrativa institucional.
A rede TRON segue como peça central nessa dinâmica. Como o CriptoBR mostrou recentemente, o USDT na TRON passou de US$ 90 bilhões em circulação, reforçando a importância da blockchain para transferências de baixo custo e liquidação rápida. O novo recorte da Dune adiciona uma camada: não se trata apenas de oferta parada, mas de uma infraestrutura usada em pagamentos e fluxos comerciais.
USDC ganha força em DeFi e trading on-chain
O USDC aparece em outra ponta do mercado. Segundo o Cointelegraph, a stablecoin da Circle está mais associada a atividade DeFi, trading on-chain e liquidez em redes como Base e Ethereum. Essa presença faz sentido: o USDC é amplamente integrado em corretoras descentralizadas, pools de liquidez, protocolos de empréstimo e aplicações voltadas ao público institucional.
Essa diferença também conversa com dados anteriores do mercado. O CriptoBR já havia reportado que o USDC liderou volume de stablecoins em levantamento da Visa, um sinal de que a moeda da Circle tem força em transações de alto giro e ambientes financeiros mais conectados a infraestrutura regulada.
Na prática, USDT e USDC podem estar vencendo batalhas diferentes. O primeiro domina onde a prioridade é alcance global, liquidez e uso cotidiano como dólar digital. O segundo avança onde integração com plataformas, conformidade e atividade DeFi têm mais peso.
Por que isso importa para o mercado
A divisão reduz a ideia de que stablecoins são produtos idênticos com marcas diferentes. Para exchanges, protocolos e empresas que usam cripto em operações reais, entender onde cada ativo é mais forte pode afetar decisões de integração, liquidez e risco.
Também há uma implicação regulatória. Stablecoins usadas em pagamentos comerciais e B2B tendem a chamar atenção de governos e bancos centrais, enquanto stablecoins usadas em DeFi levantam discussões sobre transparência, risco de contratos inteligentes e exposição a hacks. O crescimento de casos de uso corporativos, como o teste da Hyundai com USDT em remessas via Avalanche, mostra que essa fronteira entre cripto e pagamentos tradicionais está ficando menos teórica.
Para o investidor comum, o ponto principal é simples: a capitalização de mercado ainda importa, mas não conta a história inteira. O que começa a diferenciar as stablecoins é onde elas circulam, quem usa, em qual rede e para qual finalidade.
Se os dados da Dune continuarem nessa direção, o setor pode caminhar para uma estrutura em que USDT seja a principal stablecoin de pagamentos globais, enquanto USDC consolida sua posição como unidade de liquidez em DeFi, trading e produtos financeiros on-chain.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





