A Circle recebeu aprovação final do OCC para criar o Circle National Trust, banco fiduciário nacional voltado à custódia digital. A decisão coloca parte da infraestrutura do USDC sob supervisão federal direta nos EUA e abre caminho para serviços institucionais ligados a stablecoins.
A Circle recebeu nesta sexta-feira (10) a aprovação final do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para estabelecer o First National Digital Currency Bank, N.A., que vai operar comercialmente como Circle National Trust. O aval transforma uma autorização condicional obtida em dezembro de 2025 em um passo operacional para a emissora do USDC dentro do sistema bancário federal dos Estados Unidos.
O movimento importa porque aproxima a infraestrutura de stablecoins de um modelo de supervisão bancária tradicional. Segundo o comunicado da Circle, o novo banco fiduciário será regulado diretamente pelo OCC e começará oferecendo serviços de custódia de ativos digitais para a própria empresa e suas afiliadas, com possibilidade de atender instituições financeiras no futuro.
O que muda para o USDC
A aprovação não transforma o USDC em depósito bancário, nem elimina os riscos operacionais do mercado de stablecoins. Mas ela dá à Circle um veículo regulado para custódia fiduciária e, futuramente, para a gestão das reservas do USDC sob um guarda-chuva federal. Na prática, a companhia tenta reforçar a mensagem de que stablecoins podem ser infraestrutura de pagamentos e liquidação, não apenas instrumento de trading.
Jeremy Allaire, cofundador e CEO da Circle, afirmou que a supervisão federal estabelece um novo padrão de transparência, governança e escala para a infraestrutura da empresa. A leitura institucional é clara: bancos, corretoras, processadores de pagamento e empresas de mercado de capitais tendem a exigir mais clareza regulatória antes de integrar stablecoins em operações críticas.
O CriptoBR já vinha acompanhando essa corrida por trilhos regulados. Em junho, o BNY levou o USDC da Circle à custódia institucional, enquanto a Visa apontou liderança do USDC em volume de stablecoins. A autorização do OCC reforça essa mesma tese: a disputa agora passa por confiança, compliance e capacidade de distribuição para grandes players.
Stablecoins entram no radar bancário
O OCC é o regulador responsável por bancos nacionais e bancos fiduciários nacionais nos EUA. Em sua página de pedidos ligados a ativos digitais, o órgão mantém uma lista de instituições buscando charters ou conversões para operar com produtos cripto, sinal de que a fronteira entre infraestrutura bancária e blockchain está ficando menos experimental.
Para a Circle, a aprovação também tem valor competitivo. O USDC disputa espaço com o USDT da Tether em pagamentos, corretoras e DeFi, mas a estratégia das duas empresas é diferente. Enquanto a Tether domina liquidez global e redes como a TRON, tema que apareceu na matéria sobre USDT passando de US$ 90 bilhões na TRON, a Circle busca se posicionar como a stablecoin mais palatável para instituições reguladas.
Esse posicionamento ganhou força depois da abertura de capital da Circle e da expansão de produtos voltados a pagamentos globais, tokenização e infraestrutura corporativa. A empresa diz que o Circle National Trust poderá apoiar pagamentos, liquidação e atividades de mercado de capitais baseadas em dólar digital.
Por que isso importa agora
A aprovação chega em um momento em que stablecoins se tornaram uma das principais agendas regulatórias dos EUA. Bancos, fintechs, emissores cripto e gestores tradicionais disputam quem vai controlar a camada de liquidação em dólar dentro de redes públicas e privadas. Nesse cenário, um banco fiduciário nacional dá à Circle uma ferramenta para conversar com instituições em uma linguagem regulatória conhecida.
Também há um efeito de mercado: investidores tendem a precificar companhias cripto de forma diferente quando elas conseguem transformar narrativa regulatória em autorização concreta. A cobertura do Wall Street Journal destacou que o banco vai operar sob o nome Circle National Trust e que a aprovação fortalece a infraestrutura do USDC. Já o comunicado distribuído pela Circle aponta a custódia fiduciária como primeiro serviço e a gestão de reservas como uma capacidade futura.
Para usuários finais, o impacto não deve aparecer de imediato no aplicativo ou na carteira. A consequência mais relevante é indireta: se a supervisão federal reduzir atritos para bancos e empresas integrarem USDC, a stablecoin pode ganhar mais uso em pagamentos, tesouraria corporativa, liquidação 24/7 e produtos tokenizados. O teste real será a execução: operar sob um charter federal aumenta a credibilidade, mas também eleva o nível de cobrança sobre governança, reservas e controles internos.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





