O USDT entrou em uma contagem regressiva regulatória nos Estados Unidos após o primeiro aniversário do GENIUS Act. A Tether ainda precisa mostrar como pretende enquadrar reservas, registro e operação do token para manter espaço em plataformas americanas.
O USDT, maior stablecoin do mercado cripto, entrou em uma janela decisiva de dois anos nos Estados Unidos. Segundo o CoinDesk, o primeiro aniversário do GENIUS Act reacendeu a discussão sobre se a Tether conseguirá adaptar sua estrutura ao padrão exigido pela nova lei antes que plataformas americanas sejam pressionadas a restringir stablecoins não compatíveis.
O ponto central é simples: o mercado de stablecoins cresceu, mas a régua regulatória também subiu. A lei americana prevê exigências para reservas, supervisão e tratamento de emissores estrangeiros. Para uma stablecoin com presença global como o USDT, isso pode significar mudanças relevantes na composição das reservas e na forma como a empresa responde a autoridades dos EUA.
O que o GENIUS Act muda para o USDT
O GENIUS Act, registrado no Congress.gov como proposta voltada a stablecoins de pagamento, criou um caminho regulado para emissores que queiram atuar no mercado americano. A lei exige que emissores mantenham reservas em ativos de alta liquidez, como caixa e Treasuries dos EUA, além de atender regras de supervisão e compliance.
Esse detalhe pesa sobre a Tether porque seus relatórios mais recentes ainda indicam exposição a ativos que podem não se encaixar integralmente nesse padrão, incluindo metais preciosos, empréstimos e bitcoin. Em maio, o CriptoBR mostrou que a Tether ampliou o colchão de reservas do USDT, mas a discussão agora é menos sobre lucro e mais sobre aderência regulatória.
De acordo com o CoinDesk, o prazo prático mais observado pelo mercado é julho de 2028, quando terminaria a janela de transição de três anos prevista na lei. Ainda assim, há uma zona cinzenta: alguns especialistas interpretam que emissores estrangeiros podem enfrentar obrigações mais cedo, especialmente em requisitos ligados a bloqueio e apreensão de fundos associados a atividades ilícitas.
Reguladores atrasam, mas plataformas podem agir antes
Outro fator relevante é que os reguladores federais dos EUA ainda não finalizaram as regras de implementação. A demora aumenta a incerteza para emissores e exchanges, porque as empresas precisam se preparar sem saber exatamente como cada detalhe será aplicado.
Esse vácuo não significa tranquilidade. No mercado financeiro, plataformas com baixa tolerância a risco costumam se antecipar a regras que ainda estão sendo fechadas. Se grandes corretoras concluírem que listar USDT cria risco regulatório excessivo, podem reduzir suporte antes do prazo final formal.
O caso se conecta a uma disputa maior entre stablecoins globais. A Circle, emissora do USDC, tem buscado se posicionar como alternativa mais alinhada ao arcabouço americano. A Tether, por sua vez, lançou o USAT com foco em padrões dos EUA e parceria bancária local, mas o uso do novo token ainda é pequeno diante da escala do USDT.
Por que isso importa para usuários fora dos EUA
Mesmo que a discussão seja americana, o impacto pode ser global. O USDT é uma das principais pontes de liquidez em exchanges, protocolos DeFi e mesas internacionais. Qualquer restrição em plataformas dos EUA tende a mexer com pares de negociação, custos de liquidez e preferência de emissores por tokens considerados mais previsíveis do ponto de vista regulatório.
Para o Brasil, o tema também importa porque stablecoins em dólar já são uma parte central do uso cripto. O CriptoBR já mostrou que a Visa lançou uma plataforma de stablecoins para bancos e que EUA e Reino Unido têm buscado alinhar regras para stablecoins. A direção é clara: stablecoins deixaram de ser apenas infraestrutura de exchange e passaram a entrar na agenda de bancos, reguladores e sistemas de pagamento.
O cenário ainda não aponta para uma saída imediata do USDT dos EUA. Mas coloca a Tether diante de uma escolha estratégica: adaptar o token dominante ao padrão americano, empurrar usuários institucionais para um produto separado ou aceitar uma fatia menor em plataformas reguladas. Para holders e traders, o ponto de atenção é acompanhar onde a liquidez migra conforme a regulação sai do papel.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





