Uma pesquisa da Broadridge com 200 executivos dos EUA e do Canadá mostra que 84% das firmas financeiras já tratam tokenização como prioridade estratégica. O dado reforça a mudança de fase do setor: menos experimentos isolados e mais integração entre ativos digitais e a infraestrutura tradicional de mercado.
A tokenização deixou de ser apenas uma aposta de laboratório para virar item de planejamento estratégico em boa parte do mercado financeiro tradicional. Segundo a primeira pesquisa Tokenization Pulse da Broadridge, 84% das instituições entrevistadas consideram a tecnologia importante para seus negócios, enquanto 68% esperam que ela remodele parcialmente os mercados financeiros nos próximos três a cinco anos.
O levantamento ouviu 200 decisores seniores de gestoras, wealth managers, firmas de mercado de capitais e empresas de ativos digitais nos Estados Unidos e no Canadá. Para o leitor cripto, o ponto central é claro: Wall Street não está necessariamente migrando tudo para blockchains públicas de uma vez, mas está preparando uma convivência mais profunda entre trilhos tradicionais e ativos tokenizados.
Mercado quer tokenização sem abandonar sistemas atuais
O resultado mais relevante da pesquisa não é só o número de empresas interessadas, mas o modelo que elas pretendem adotar. De acordo com a Broadridge, 92% dos respondentes esperam que ativos digitais e tradicionais coexistam por um período prolongado. Além disso, 69% planejam adaptar a infraestrutura existente, em vez de criar sistemas totalmente separados para mercados tokenizados.
Esse detalhe ajuda a explicar a direção dos grandes players. Em vez de substituir bolsas, custodiante, clearing e sistemas de pós-negociação de uma vez, o setor parece buscar uma camada híbrida, capaz de conectar registros em blockchain com controles já conhecidos de governança, liquidação e compliance.
Esse movimento conversa com outras iniciativas recentes de tokenização institucional. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a DTCC levando tokenização de Wall Street à Stellar, a infraestrutura tradicional tem testado formas de representar ativos financeiros em redes blockchain sem abrir mão das proteções e direitos associados aos instrumentos originais.
Fundos devem vir antes de ações tokenizadas
A pesquisa também mostra que a adoção deve avançar de forma desigual por classe de ativo. Cerca de 80% dos participantes esperam que fundos mútuos tokenizados e fundos de money market tenham papel relevante em até cinco anos. Já as ações tokenizadas aparecem com expectativa mais moderada: apenas cerca de metade dos entrevistados prevê adoção significativa no mesmo horizonte.
Essa diferença faz sentido. Produtos parecidos com fundos de renda fixa, tesourarias tokenizadas e money market funds já têm demanda institucional mais clara, liquidação mais previsível e menor complexidade operacional do que ações com dividendos, voto, eventos corporativos e regras específicas de cada jurisdição.
Ainda assim, o apetite por investimento está subindo. Quase um terço das empresas ouvidas pretende aumentar os gastos com tokenização entre 26% e 50% ou mais nos próximos dois anos. A Broadridge afirma que as firmas de mercado de capitais estão na frente: 44% delas já têm iniciativas em produção ou em escala, contra 20% das gestoras de ativos e 9% das wealth managers.
Regulação ainda é o principal freio
Mesmo com o avanço, o estudo não pinta um caminho sem obstáculos. A incerteza regulatória foi apontada como o desafio mais citado, seguida pela complexidade de integrar blockchain a sistemas legados. Para instituições grandes, tokenizar um ativo não basta: é preciso garantir custódia, controles, governança, relatórios, reconciliação e direitos do investidor.
Esse cuidado é importante porque a tokenização já passou da narrativa genérica de “tudo vai para a blockchain”. O que aparece agora é uma fase mais pragmática, em que bancos, bolsas, provedores de tecnologia e gestoras buscam eficiência de liquidação e operação sem romper com estruturas que ainda carregam trilhões de dólares em ativos.
O tema também se conecta ao avanço dos ativos do mundo real no ecossistema cripto. Em junho, o CriptoBR reportou que o Congresso dos EUA debateu tokenização em meio a um mercado RWA de US$ 26 bilhões. Mais recentemente, a Visa lançou uma plataforma de stablecoins para bancos, outro sinal de que infraestrutura financeira tradicional e blockchain estão ficando mais próximas.
Para investidores e empresas cripto, a leitura é dupla. A boa notícia é que o interesse institucional segue forte e com orçamento crescente. O alerta é que a próxima onda de tokenização deve ser menos “cripto nativa” e mais integrada a regras, sistemas e intermediários já estabelecidos no mercado financeiro.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





