A BlackRock já soma US$ 2,93 bilhões em fundos tokenizados on-chain, com o Ethereum concentrando cerca de US$ 1,1 bilhão. O avanço reforça a disputa institucional por dinheiro de curto prazo, stablecoins e ativos reais tokenizados.
A BlackRock chegou a US$ 2,93 bilhões em ativos tokenizados on-chain, segundo levantamento publicado pelo Bitcoin.com News nesta segunda-feira (13). O Ethereum lidera a distribuição por rede, com cerca de US$ 1,1 bilhão, à frente de Avalanche, Solana, BNB Chain e outras blockchains usadas nos produtos da gestora.
O número importa porque mostra que a tokenização deixou de ser apenas uma vitrine experimental para entrar no terreno de caixa institucional, fundos monetários e garantias de curto prazo. Em vez de mirar apenas exposição a criptoativos voláteis, a maior gestora de ativos do mundo está levando para blockchains públicas uma parte da infraestrutura tradicional de mercado financeiro.
BUIDL segue como principal motor
A maior fatia desse valor está no BlackRock USD Institutional Digital Liquidity Fund, conhecido como BUIDL. O fundo foi lançado em 2024 com a Securitize e investe em caixa, títulos do Tesouro dos Estados Unidos e operações compromissadas, representando as cotas dos investidores como tokens que podem circular em ambiente blockchain.
O BUIDL começou no Ethereum e depois foi expandido para oito redes, incluindo Solana, Polygon, Avalanche, Arbitrum, Optimism, Aptos e BNB Chain. O acesso, porém, segue restrito a compradores qualificados, com tíquete mínimo citado de US$ 5 milhões para indivíduos e US$ 25 milhões para instituições.
Essa restrição é central para entender o produto: não se trata de um token de varejo aberto, mas de uma versão on-chain de um fundo institucional. A diferença é operacional. Liquidação, transferência e uso como garantia podem ocorrer em trilhos blockchain, enquanto a base econômica continua sendo composta por instrumentos tradicionais de baixo risco.
A tese também conversa com movimentos recentes já acompanhados pelo CriptoBR. A própria BlackRock vem mirando stablecoins com fundos tokenizados, como mostramos na matéria sobre a estratégia da gestora para capturar caixa on-chain. O mesmo movimento aparece em iniciativas de bolsas, bancos e plataformas que querem transformar cotas de fundos e Treasuries em colateral programável.
Stablecoins viram alvo natural
Além do BUIDL, a BlackRock também protocolou nos Estados Unidos a criação de novos fundos tokenizados voltados a investidores que já mantêm capital em stablecoins. A leitura é simples: há centenas de bilhões de dólares em moedas estáveis, mas boa parte desse capital ainda fica parada ou depende de estruturas de rendimento pouco padronizadas.
Para instituições, um fundo monetário tokenizado pode resolver duas dores ao mesmo tempo. De um lado, oferece exposição regulada a instrumentos como caixa e Treasuries. Do outro, preserva parte da agilidade esperada por quem opera em mercados cripto, especialmente quando o ativo pode ser usado como garantia ou liquidez em plataformas compatíveis.
Esse ponto ajuda a explicar por que o mercado de RWA ganhou tanta tração. Dados citados pelo Bitcoin.com News apontam que o setor de ativos reais tokenizados está perto de US$ 34,5 bilhões, com os Treasuries tokenizados acima de US$ 15 bilhões. A competição envolve BlackRock, Circle, JPMorgan, Franklin Templeton e outros nomes que já disputam a infraestrutura de liquidação do próximo ciclo institucional.
No CriptoBR, esse crescimento já vinha aparecendo em diferentes frentes: a Circle captou US$ 222 milhões para a Arc com BlackRock e Apollo, enquanto a BNB Chain superou US$ 5 bilhões em ações tokenizadas. O recado é que a corrida não está limitada ao Ethereum, embora ele ainda concentre a maior parte do valor de fundos tokenizados.
O que fica no radar
O próximo ponto de atenção é regulatório. A expansão dos fundos BSTBL e BRSRV depende de aprovação e cronograma junto à SEC. Se os produtos avançarem, a BlackRock pode ampliar sua presença justamente no pedaço mais disputado do mercado: dinheiro de curto prazo que hoje circula em stablecoins, corretoras e tesourarias cripto.
Para o leitor, a consequência prática é acompanhar menos o discurso genérico de “tokenizar tudo” e mais os ativos que estão entrando primeiro. Até agora, a prioridade institucional tem sido clara: caixa, Treasuries, fundos monetários e instrumentos usados como colateral. É por esse caminho que a tokenização está deixando de ser narrativa e virando infraestrutura financeira.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





