A Tether e o governo da Geórgia anunciaram planos para lançar a GELT, uma stablecoin atrelada ao lari georgiano. O projeto mira pagamentos digitais, comércio internacional e liquidação quase instantânea, mas detalhes centrais como emissor, reservas e cronograma ainda não foram divulgados.
A Tether anunciou nesta segunda-feira (25) planos para lançar a GELT, uma stablecoin que representaria o lari georgiano com apoio do governo da Geórgia. A iniciativa coloca uma moeda nacional em trilhos digitais privados e regulados, em um momento em que stablecoins deixam de ser apenas infraestrutura de exchanges e passam a disputar espaço em pagamentos, remessas e liquidação entre empresas.
Segundo a companhia, a GELT foi desenhada para reduzir custos de transação, permitir liquidação quase instantânea e abrir caminho para pagamentos programáveis. O ponto relevante para o mercado é que o projeto nasce vinculado a uma estrutura regulatória específica para stablecoins na Geórgia, com menção a reservas, direitos de resgate, supervisão do emissor e regras de prevenção à lavagem de dinheiro.
Stablecoin nacional com apoio privado
A Tether afirma que a GELT será uma representação digital do lari georgiano, moeda oficial do país. Na prática, o modelo tenta levar para uma moeda local parte da lógica que tornou o USDT dominante em mercados emergentes: liquidação rápida, circulação global e integração fácil com carteiras, plataformas fintech e sistemas de pagamento.
A diferença é que, neste caso, o token nasce com apoio explícito do governo local. O comunicado da Tether diz que a Geórgia quer usar a parceria para se posicionar como ponte entre finanças tradicionais e economia digital. A empresa também destacou que o país já permite pagamentos de impostos por meio da conversão instantânea de ativos digitais para moeda local, sinal de que a estratégia não está restrita a um teste isolado.
O movimento reforça uma tendência que o CriptoBR vem acompanhando: stablecoins nacionais e regionais estão ganhando espaço, mesmo que o dólar continue esmagadoramente dominante. Em abril, mostramos que stablecoins fora do dólar ainda representavam só 0,24% do mercado, o que mostra o tamanho do desafio para qualquer token atrelado a moedas locais.
O que ainda falta saber
Apesar do anúncio, a Tether não divulgou pontos essenciais para avaliar o risco e a utilidade da GELT. Ainda não está claro quem será o emissor legal da stablecoin, onde as reservas ficarão custodiadas, se usuários terão direito direto de resgate em lari e qual será a data de lançamento. A própria empresa afirmou que detalhes de estrutura, implementação regulatória e cronograma serão anunciados posteriormente.
Esse cuidado importa porque stablecoins dependem de confiança operacional. Não basta prometer paridade com uma moeda fiduciária: o mercado precisa saber quais ativos sustentam o token, quem audita as reservas, como funcionam os resgates e qual regulador pode agir em caso de falha. A discussão ganhou ainda mais força depois de episódios recentes de perda de paridade, como o caso em que a StablR perdeu US$ 2,8 milhões e viu stablecoins saírem do peg.
De acordo com o Cointelegraph, o Banco Nacional da Geórgia publicou em março regras para oferta inicial de stablecoins, incluindo exigência de consentimento prévio, lastro integral por ativos de reserva, documentos de emissão e verificação por auditor externo. A estrutura também mira alinhamento com padrões internacionais de proteção ao consumidor e gestão de risco.
Geórgia tenta antecipar a disputa regulatória
Outro detalhe do anúncio é a tentativa de compatibilidade com regras emergentes dos Estados Unidos, incluindo o GENIUS Act. Para a Geórgia, isso pode ser uma forma de atrair empresas de ativos digitais que buscam jurisdições menores, mas com regras claras. Para a Tether, é mais um passo em uma estratégia de expansão além do USDT, que já inclui produtos voltados a mercados específicos.
A empresa lançou ou anunciou stablecoins ligadas a outras moedas, como peso mexicano, yuan offshore e dirham dos Emirados Árabes Unidos. Também lançou a USAT, voltada ao mercado americano. Essa diversificação acontece enquanto governos e bancos centrais observam o crescimento do setor com atenção, especialmente depois de estimativas que colocam o mercado de stablecoins em rota de forte expansão. Como o CriptoBR publicou recentemente, a Bitwise vê stablecoins chegando a US$ 4 trilhões até 2030.
Para o leitor brasileiro, a notícia importa menos pelo lari em si e mais pelo precedente. Se governos menores conseguirem criar stablecoins locais com regras claras, reservas verificáveis e uso real em pagamentos, o modelo pode pressionar outros países a acelerar estruturas parecidas. Se os detalhes ficarem nebulosos, porém, a GELT será apenas mais um anúncio em um setor onde a confiança precisa ser comprovada antes da adoção.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





