Sony Bank recebeu aprovação condicional do OCC para criar a Connectia Trust nos EUA, uma subsidiária voltada à emissão e gestão de stablecoin em dólar. O movimento coloca uma marca global de entretenimento mais perto de usar dinheiro tokenizado em pagamentos digitais, mas ainda depende de aprovação final e cumprimento de exigências regulatórias.
O Sony Bank recebeu aprovação condicional do Office of the Comptroller of the Currency (OCC), regulador bancário dos Estados Unidos, para estabelecer uma subsidiária nacional de trust bank focada em ativos digitais. A nova empresa, chamada Connectia Trust, deve atuar na emissão e gestão de uma stablecoin lastreada em dólar, de acordo com informações publicadas pelo The Block e por veículos do setor bancário nesta quinta-feira (9).
A decisão não significa lançamento imediato. A aprovação é condicional, e a Connectia Trust ainda precisa cumprir requisitos de capital, governança, controles de risco e supervisão antes de iniciar operações. Segundo comunicado anterior do Sony Bank citado pela imprensa, a subsidiária deve ser formada em julho com US$ 40 milhões em capital e tem lançamento operacional previsto para 2027, caso receba o aval final.
Stablecoin mira pagamentos no ecossistema da Sony
O ponto central da estratégia é transformar uma parte do enorme ecossistema digital da Sony em um ambiente compatível com pagamentos tokenizados. A empresa já havia sinalizado, como o CriptoBR reportou em matéria sobre a stablecoin própria da Sony para jogos e animes, que estudava uma moeda digital em dólar para compras de games, assinaturas, anime e outros conteúdos digitais.
Na prática, uma stablecoin emitida dentro de uma estrutura regulada poderia funcionar como trilho de pagamento programável, com liquidação mais rápida e integração mais direta a carteiras digitais e plataformas online. Para o usuário final, o impacto só deve aparecer se a Sony decidir levar o produto para suas marcas de consumo. Para o mercado, o sinal é mais imediato: grandes grupos de tecnologia e entretenimento continuam buscando uma forma regulada de entrar em pagamentos com blockchain.
O caso também reforça uma diferença importante. Stablecoins como USDC e USDT já dominam o mercado cripto aberto, mas bancos e empresas tradicionais tendem a preferir estruturas com reserva, custódia e supervisão mais próximas do sistema financeiro existente. Esse debate ganhou força conforme dados de mercado mostram crescimento no uso institucional de stablecoins, tema que apareceu recentemente na análise do CriptoBR sobre como o USDC lidera o volume de stablecoins, segundo a Visa.
OCC vira porta de entrada para emissores regulados
A aprovação condicional do OCC é relevante porque coloca a Sony em uma fila de empresas que tentam operar stablecoins a partir de uma licença bancária federal nos EUA. O modelo de national trust bank não é igual a um banco comercial tradicional: em geral, não permite receber depósitos comuns nem oferecer contas correntes seguradas pelo FDIC. Ainda assim, dá uma moldura regulatória nacional para atividades fiduciárias, custódia e, em alguns casos, emissão de ativos digitais.
Esse caminho tem atraído emissores cripto e instituições financeiras, especialmente após o avanço de regras específicas para stablecoins nos EUA. Ao mesmo tempo, entidades bancárias tradicionais e grupos de defesa do consumidor têm questionado se essas licenças podem criar arbitragem regulatória. A própria aplicação da Connectia Trust havia recebido críticas de associações do setor em 2025, em parte pela preocupação de que empresas não bancárias ganhassem acesso a funções próximas do sistema financeiro sem as mesmas obrigações de bancos completos.
O debate regulatório nos EUA segue em movimento. Na quarta-feira (8), o CriptoBR mostrou que a SEC prepara uma regra para aliviar startups cripto, sinalizando uma tentativa mais ampla de adaptar a supervisão de ativos digitais. No caso da Sony, porém, o foco não está em negociação de tokens ou DeFi, mas em infraestrutura de pagamento e reserva de valor digital.
Tokenização avança fora do mercado cripto puro
A entrada de uma marca como Sony no tema stablecoin mostra que a tokenização está deixando de ser apenas uma pauta de corretoras e protocolos. Bancos, redes de pagamento e empresas de tecnologia estão testando modelos em que dinheiro, depósitos, títulos e ativos financeiros passam a circular em trilhos programáveis, mesmo quando o usuário final não percebe que há blockchain por trás.
Esse movimento também traz riscos. Como o CriptoBR destacou na cobertura sobre o alerta do FMI de que a tokenização pode fragmentar as finanças, a multiplicação de redes, emissores e padrões pode criar novos pontos de atrito entre sistemas privados. Para uma stablecoin ligada à Sony, a pergunta será se o produto ficará restrito ao ecossistema da empresa ou se buscará interoperabilidade com outros ambientes financeiros.
Por ora, a Connectia Trust ainda é uma promessa regulada, não um produto disponível. O avanço condicional no OCC, porém, coloca a Sony mais perto de testar uma tese que vem ganhando força em 2026: stablecoins não são apenas uma ferramenta de traders cripto, mas uma infraestrutura que empresas globais querem adaptar para pagamentos, conteúdo digital e serviços financeiros próprios.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





