A Polymarket iniciou uma campanha para reconstruir sua imagem nos Estados Unidos após quatro anos afastada do mercado local. A volta combina app supervisionado pela CFTC, parcerias esportivas e mídia, mas ainda enfrenta dúvidas sobre marketing, compliance e proteção ao usuário.
A Polymarket voltou ao centro do debate regulatório nos Estados Unidos. Segundo reportagem da Associated Press citada pelo CoinDesk, a plataforma de mercados de previsão iniciou uma campanha ampla para convencer reguladores, políticos e usuários de que sua operação americana é mais disciplinada do que a versão offshore que acumulou controvérsias nos últimos anos.
O movimento importa porque mercados de previsão estão deixando de ser um nicho cripto e passando a disputar espaço com apostas esportivas, mídia em tempo real e produtos financeiros regulados. A Polymarket tenta transformar sua marca de “apostas em eventos” em uma infraestrutura aceita pelo mercado americano, agora com aplicativo supervisionado pela CFTC e foco em contratos mais restritos.
Campanha tenta virar a página regulatória
De acordo com a AP, a estratégia inclui influenciadores em redes como TikTok, acordos com grandes times esportivos, parceria com a Major League Baseball e presença em veículos como CNBC e CNN. A empresa quer usar esses canais para mostrar que sua operação nos EUA não é apenas uma extensão da plataforma global baseada em cripto.
A diferença é central para o argumento da companhia. A operação internacional da Polymarket usa blockchain e criptoativos, enquanto a versão americana funciona com moeda fiduciária e sob supervisão da Commodity Futures Trading Commission, a CFTC. Essa mudança busca reduzir o risco de a plataforma ser vista como uma bolsa offshore tentando atender clientes dos EUA por vias indiretas.
O histórico pesa. Em 2022, a Polymarket aceitou deixar de atender usuários americanos após acordo de US$ 1,4 milhão com a CFTC, que alegava oferta de derivativos baseados em eventos sem registro adequado. Desde então, a empresa tenta reabrir o mercado local por caminhos regulados, incluindo a aquisição da QCEX, que ajudou a viabilizar uma licença para a nova fase.
Esse processo já vinha ganhando tração. O CriptoBR mostrou que a CFTC abriu caminho para Polymarket e Kalshi nos EUA, em um sinal de que o regulador passou a tratar mercados de previsão como uma categoria que pode existir dentro de certos limites. Antes disso, a empresa também havia tentado voltar aos EUA com aval da CFTC.
Esporte, mídia e confiança
A parceria com o esporte é uma peça relevante dessa reconstrução. Em março, o CriptoBR noticiou que a MLB fechou parceria exclusiva com a Polymarket, em acordo que aproximou a plataforma de uma liga tradicional e reforçou sua tentativa de se posicionar como produto regulado, não apenas como site cripto de apostas.
Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta uma tarefa difícil: convencer usuários de que mercados de previsão podem ser transparentes e úteis sem incentivar apostas opacas, manipulação de narrativa ou uso indevido de informação privilegiada. A própria AP destacou que a Polymarket tem investido em executivos com passagens por Coinbase, Robinhood, Departamento de Justiça e FBI para dar mais peso institucional à operação americana.
A concorrência também subiu de nível. A Kalshi opera sob supervisão da CFTC desde 2020 e virou referência local em contratos de eventos. A disputa entre as duas plataformas pode definir se o setor será percebido como uma nova camada de informação financeira ou apenas como uma expansão das apostas esportivas com embalagem tecnológica.
Por que isso importa para cripto
Para o mercado cripto, a volta da Polymarket aos EUA é um teste maior do que a própria empresa. Se uma plataforma nascida em blockchain conseguir operar dentro de regras americanas e manter escala, isso reforça a tese de que produtos cripto podem migrar para estruturas reguladas sem perder totalmente sua proposta original.
Mas o caminho segue estreito. O crescimento da Polymarket depende de confiança pública, clareza sobre quais eventos podem ser negociados e controle sobre campanhas promocionais. Sem isso, a plataforma corre o risco de reacender a crítica de que mercados de previsão são difíceis de separar de apostas tradicionais e podem amplificar incentivos ruins em temas políticos, esportivos e financeiros.
Por enquanto, a empresa tenta vender uma nova fase: menos offshore, mais compliance e mais parcerias institucionais. O mercado agora vai observar se essa narrativa se sustenta quando o volume aumentar e os conflitos regulatórios voltarem ao centro do jogo.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





