O FMI afirmou que a tokenização pode remodelar a arquitetura financeira global, mas alertou que escolhas regulatórias mal coordenadas podem fragmentar mercados e concentrar riscos em plataformas e códigos. O debate afeta bancos, emissores de stablecoins, infraestrutura de mercado e projetos de RWA.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou que a tokenização deixou de ser apenas uma promessa de pagamentos mais rápidos e pode alterar a forma como o sistema financeiro liquida, registra e transfere ativos. Em artigo publicado em 2 de julho, Tobias Adrian, diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI, alertou que as decisões tomadas agora por reguladores e bancos centrais vão determinar se essa transição fortalece ou fragmenta as finanças globais.
A avaliação ganhou força nesta sexta-feira (3), com repercussão no mercado cripto após a publicação de novas notas do FMI sobre pagamentos, ativos tokenizados e infraestrutura de mercado. O ponto central é simples: quando ativos e passivos financeiros passam a circular em ledgers compartilhados, etapas que hoje ocorrem em sequência, como execução, compensação e liquidação, podem acontecer ao mesmo tempo por meio de software.
Tokenização reduz atrito, mas também remove amortecedores
Segundo o FMI, a tokenização pode reduzir custos, encurtar prazos de liquidação e permitir que ativos sejam programáveis. Esse é o mesmo argumento que tem impulsionado bancos, gestoras e redes públicas a testar aplicações de RWA, ou ativos do mundo real, em blockchain. O CriptoBR já mostrou esse movimento em casos como a expansão de RWAs na BNB Chain e a entrada da Securitize no caminho para a NYSE.
Mas o FMI destaca que a eficiência vem acompanhada de novos pontos de falha. Em mercados tradicionais, atrasos e reconciliações também funcionam como amortecedores: dão tempo para intervenção em momentos de estresse, correção de erros e gestão de liquidez. Em um ambiente 24/7, chamadas de margem, resgates e transferências podem ser automatizados e se espalhar mais rápido do que supervisores e instituições conseguem responder.
O relatório também chama atenção para uma mudança no mapa de riscos. Em vez de ficarem concentrados apenas nos balanços de bancos, fundos e corretoras, os riscos podem migrar para plataformas, provedores de infraestrutura, pontes, oráculos e contratos inteligentes. Na prática, parte da supervisão teria que olhar não só para instituições, mas para o código que executa regras financeiras.
Stablecoins, depósitos tokenizados e reservas digitais entram no centro
O FMI aponta três tipos de ativos de liquidação que devem disputar espaço em uma economia tokenizada: depósitos bancários tokenizados, stablecoins e reservas de bancos centrais em formato tokenizado. Cada modelo resolve uma parte do problema, mas cria trade-offs próprios.
Depósitos tokenizados preservam a estrutura regulatória bancária e podem melhorar a gestão de liquidez entre instituições. Stablecoins oferecem alcance global e programação, mas dependem da qualidade das reservas, da liquidez de mercado e da resiliência do emissor. Já reservas tokenizadas de bancos centrais reduziriam risco de crédito no ativo de liquidação, mas exigiriam uma participação operacional maior das autoridades monetárias em infraestruturas programáveis.
Esse debate conversa diretamente com a pressão regulatória recente sobre stablecoins. Como o CriptoBR reportou, o BIS já comparou stablecoins a estruturas parecidas com ETFs, enquanto diferentes países ajustam regras para reservas, emissores e uso em pagamentos.
Fragmentação vira risco para liquidez global
Para o FMI, a interoperabilidade será decisiva. Se bancos, governos e redes privadas criarem sistemas fechados, a tokenização pode acabar recriando silos, prendendo liquidez em plataformas incompatíveis e elevando o risco operacional. O ganho de liquidação instantânea perderia força se cada mercado funcionasse em seu próprio padrão técnico e jurídico.
O alerta é especialmente relevante para economias emergentes. Pagamentos transfronteiriços mais rápidos e baratos podem ampliar acesso a mercados e reduzir ineficiências históricas. Ao mesmo tempo, ativos tokenizados e stablecoins globais podem acelerar fluxos de capital, aumentar substituição de moeda local e reduzir a capacidade de reação de bancos centrais em momentos de estresse.
A mensagem do FMI não é contra tokenização. O tom é de cautela institucional: a tecnologia pode entregar liquidez, eficiência e novos mercados, desde que venha acompanhada de regras claras sobre propriedade, liquidação final, governança de contratos inteligentes, cibersegurança e coordenação internacional.
Para o mercado cripto, o recado é importante porque reforça que a próxima fase de adoção institucional não depende apenas de produtos em blockchain. Ela depende de infraestrutura jurídica e regulatória capaz de sustentar mercados tokenizados em escala, sem transformar eficiência em fragilidade sistêmica.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





