Grupos bancários dos Estados Unidos querem mais prazo para comentar regras do Genius Act, marco federal para stablecoins. Enquanto isso, a Agora tenta obter uma licença bancária nacional para emitir dólares digitais sob supervisão do OCC.
Grandes bancos dos Estados Unidos tentam desacelerar a implementação do Genius Act, a lei federal que cria regras para emissores de stablecoins, enquanto empresas cripto se movem para ocupar espaço no novo regime. Segundo o CoinDesk, associações bancárias pediram períodos mais longos de consulta pública antes da aplicação completa das normas.
O movimento importa porque stablecoins deixaram de ser apenas infraestrutura de corretoras e passaram a disputar diretamente a camada de pagamentos, liquidez e depósitos. Se a regulação avançar rápido, emissores cripto com estrutura bancária podem ganhar vantagem no mercado de dólar digital; se atrasar, bancos tradicionais ganham tempo para adaptar seus modelos.
Disputa gira em torno de depósitos e rendimento
De acordo com a reportagem, o CEO da Agora, Nick van Eck, afirmou que a reação dos bancos não é surpresa e que o Genius Act está entre as mudanças mais relevantes para o setor bancário. Para ele, a principal preocupação das instituições tradicionais é a possibilidade de “fuga de depósitos” caso stablecoins reguladas consigam repassar parte dos rendimentos aos usuários.
Na prática, o embate envolve a economia dos depósitos. Bancos captam recursos pagando juros baixos — ou quase zero — e capturam a diferença em aplicações de baixo risco. Stablecoins lastreadas em ativos líquidos, por outro lado, podem tornar essa dinâmica mais transparente e pressionar margens se usuários passarem a preferir dólares digitais com melhor remuneração ou uso mais simples em plataformas on-chain.
O tema também conversa com uma tendência já visível no mercado. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a expansão da Visa para stablecoins em 9 blockchains, empresas de pagamento estão testando trilhos digitais em escala global. A diferença, agora, é que a disputa passa pelo coração regulatório do sistema financeiro americano.
Agora busca licença bancária no OCC
Enquanto bancos pedem cautela, a Agora tenta avançar por dentro do próprio sistema regulado. A empresa solicitou ao Office of the Comptroller of the Currency (OCC) uma licença de banco fiduciário nacional, com a meta de obter aprovação até o fim do ano. A ideia é emitir stablecoins diretamente sob supervisão federal, além de oferecer serviços de custódia, compliance e infraestrutura.
Van Eck disse ao CoinDesk que a licença poderia reduzir taxas consideradas excessivas em rampas de entrada e saída entre moedas fiduciárias e cripto. A tese é transformar stablecoins em uma camada mais invisível de infraestrutura: empresas usariam pagamentos e liquidação on-chain sem necessariamente lidar com a complexidade técnica da blockchain.
A corrida por stablecoins reguladas já aparece em outras frentes. Recentemente, o CriptoBR noticiou que a Morgan Stanley lançou um fundo voltado a reservas de stablecoins, sinalizando interesse institucional nos ativos que sustentam esses tokens. Também há pressão competitiva fora dos EUA, como no debate europeu em torno da MiCA e das stablecoins em euro.
O que muda para o mercado cripto
Para o investidor e para empresas que usam cripto, a discussão define quem controlará a próxima fase dos dólares digitais: bancos com estruturas já estabelecidas ou emissores nativos do setor cripto que aceitarem operar com licença e supervisão. Um marco federal unificado pode reduzir incertezas, mas também elevar a barreira de entrada para novos competidores.
O ponto sensível é que stablecoins se tornaram infraestrutura básica para exchanges, DeFi, remessas e pagamentos internacionais. Regras mais claras podem atrair capital institucional, mas atrasos prolongados mantêm parte do mercado em compasso de espera — especialmente empresas que precisam decidir se buscam licenças bancárias, parcerias com instituições tradicionais ou modelos fora dos Estados Unidos.
No curto prazo, a disputa deve continuar nos bastidores regulatórios. Bancos querem mais tempo para analisar os impactos do Genius Act, enquanto empresas como a Agora tentam chegar primeiro ao novo mercado de stablecoins federais.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





