A FCA e o Banco da Inglaterra apresentaram uma visão conjunta para tokenização em mercados atacadistas, com foco em ativos tokenizados, colateral, instrumentos de liquidação e regras prudenciais. O plano também inclui uma consulta para ampliar os horários de RTGS e CHAPS rumo a uma operação quase 24/7, sinalizando que o Reino Unido quer levar pilotos de DLT para uso real em infraestrutura financeira.
O Reino Unido deu mais um passo para transformar tokenização em infraestrutura de mercado. A Financial Conduct Authority (FCA) e o Banco da Inglaterra apresentaram nesta segunda-feira (18) uma visão conjunta para mercados atacadistas tokenizados, com diretrizes sobre tratamento prudencial, colateral tokenizado, instrumentos de liquidação e uma consulta para ampliar o funcionamento do RTGS e do CHAPS rumo a uma operação quase 24/7.
Na prática, o anúncio tenta responder à principal demanda de bancos, gestores e infraestruturas de mercado: clareza regulatória para sair dos testes e levar ativos tokenizados para produção. Segundo a FCA, a tokenização pode tornar a emissão, negociação e liquidação de títulos mais rápidas e eficientes, reduzindo custos e riscos operacionais.
Reguladores querem tirar tokenização dos pilotos
A FCA definiu tokenização como a criação de uma representação digital de um ativo do mundo real, como uma ação, um título de dívida ou uma unidade de moeda, em um ledger digital. O regulador afirma que a tecnologia pode melhorar a eficiência e a resiliência dos mercados atacadistas, desde que avance com regras claras de custódia, liquidação e gestão de risco.
Simon Walls, diretor executivo de mercados da FCA, disse que a tokenização tem potencial para “transformar mercados atacadistas” ao remodelar a forma como ativos são emitidos, negociados e liquidados. Já Sarah Breeden, vice-governadora de estabilidade financeira do Banco da Inglaterra, afirmou que o desafio agora é levar a tecnologia “dos pilotos para produção” sem comprometer a estabilidade financeira.
O movimento dialoga com uma tendência mais ampla de institucionalização dos ativos digitais. Como o CriptoBR mostrou na cobertura sobre a entrada da BNY em custódia de Bitcoin e Ether em Abu Dhabi, grandes instituições financeiras vêm ampliando serviços de cripto, mas ainda dependem de infraestrutura regulada para atender clientes profissionais.
Stablecoins, depósitos e liquidação 24/7 entram no radar
Um dos pontos centrais do pacote é a consulta do Banco da Inglaterra sobre a extensão dos horários de liquidação do RTGS e do CHAPS. A proposta prevê uma abordagem gradual, com horários diários mais longos e funcionamento em fins de semana, sujeita à preparação do setor. O objetivo é aproximar a infraestrutura tradicional do ritmo dos mercados digitais, que operam continuamente.
A Prudential Regulation Authority (PRA) também publicou orientações atualizadas para bancos sobre exposições a ativos tokenizados, stablecoins e outros criptoativos, além de inovações envolvendo depósitos e dinheiro eletrônico. Para instituições financeiras, isso é relevante porque define como riscos de capital, liquidez, custódia e compliance devem ser tratados antes de qualquer adoção em escala.
O tema é especialmente sensível para stablecoins. Em abril, o CriptoBR noticiou que o Banco da Inglaterra já vinha revisando limites para stablecoins após pressão do setor. Agora, a autoridade monetária liga esse debate à liquidação institucional e à modernização de trilhos de pagamento, um passo importante para bancos que desejam usar dinheiro tokenizado em operações de mercado.
O que muda para o mercado cripto
Para o investidor comum, o anúncio não cria um novo token nem aprova stablecoins de varejo imediatamente. O impacto está na camada de infraestrutura: se bancos, custodiante, bolsas e câmaras de compensação ganharem regras mais previsíveis, ativos tokenizados podem circular com menos fricção em ambientes regulados.
A FCA também abriu uma chamada por contribuições da indústria, com prazo até 3 de julho de 2026. O feedback deve orientar os próximos passos de um roteiro conjunto para mercados atacadistas digitais. O órgão informou ainda que segue trabalhando com 16 empresas na emissão e liquidação ao vivo de ativos tokenizados dentro do Digital Securities Sandbox.
Outro sinal relevante é a meta do Banco da Inglaterra de lançar um serviço de sincronização ao vivo em 2028. Esse tipo de mecanismo pode conectar a liquidação em dinheiro de banco central com operações tokenizadas, reduzindo risco de contraparte em transações que envolvem títulos, colateral e pagamentos.
O Reino Unido tenta se posicionar como um centro global de finanças digitais reguladas em um momento em que tokenização ganha tração entre bancos e gestoras. A tese é parecida com a que apareceu em movimentos recentes de mercado, como a compra da Equiniti pela Bullish para avançar em tokenização: a próxima fase cripto pode depender menos de hype e mais de infraestrutura institucional funcionando nos bastidores.
Se a consulta avançar, o país pode criar uma ponte mais clara entre DLT, stablecoins reguladas, dinheiro bancário e sistemas de liquidação tradicionais. Ainda há incertezas sobre custo, interoperabilidade e supervisão, mas o recado dos reguladores é direto: tokenização deixou de ser apenas experimento e entrou no planejamento oficial da infraestrutura financeira britânica.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





