Open USD surge com apoio de nomes como Visa, Stripe, Coinbase, BlackRock e Google para disputar o mercado de stablecoins. A proposta é permitir mint e resgate sem taxas, além de repartir parte da receita das reservas com empresas participantes.
A Open USD entrou no radar do mercado nesta terça-feira (30) como uma nova tentativa de quebrar a concentração das stablecoins em poucos emissores. Segundo a CoinDesk, a iniciativa reúne Stripe, Coinbase, Visa, BlackRock e outros participantes em uma rede desenhada para compartilhar a receita das reservas, um ponto sensível para concorrentes como a Circle, emissora do USDC.
A notícia pesou sobre as ações da Circle, que chegaram a cair cerca de 8% após a divulgação, de acordo com a mesma reportagem. O movimento mostra que a disputa por stablecoins deixou de ser apenas uma briga por liquidez on-chain: agora envolve distribuição global, cartões, bancos, plataformas de pagamento e quem fica com o rendimento dos ativos que lastreiam os tokens.
O que é a Open USD
A Open USD é apresentada como uma stablecoin de dólar ligada à Open Standard, com lançamento esperado para mais adiante em 2026. A proposta, segundo The Block, é permitir que empresas participantes emitam e resgatem o token sem taxas ou limites de volume.
O diferencial está no modelo econômico. Em vez de concentrar a maior parte da receita das reservas no emissor, a rede pretende distribuir a maior parte desse rendimento entre os parceiros, descontada uma taxa de gestão. Isso muda o incentivo para empresas que já têm grande base de usuários, pois elas poderiam integrar uma stablecoin sem abrir mão totalmente da economia gerada pelo lastro.
O desenho conversa diretamente com a tendência que já vinha aparecendo em pagamentos digitais. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a entrada do BNY na custódia institucional do USDC, bancos e gestores tradicionais estão se aproximando das stablecoins não apenas como infraestrutura cripto, mas como uma nova camada de liquidação financeira.
Por que isso pressiona Circle e USDC
A Circle se tornou uma das principais vencedoras do ciclo de stablecoins ao transformar o USDC em um ativo usado por exchanges, fintechs, protocolos DeFi e instituições. O problema é que uma rede com nomes como Visa, Stripe, Coinbase e BlackRock pode disputar justamente o canal de distribuição que dá escala ao USDC.
O ponto crítico é a receita das reservas. Stablecoins lastreadas em dólar normalmente mantêm parte relevante do lastro em caixa, depósitos e títulos de curto prazo. Quando os juros estão altos, esse lastro gera rendimento. Se a Open USD conseguir devolver uma fatia maior desse rendimento aos parceiros que trazem volume, ela pode tornar o modelo mais atraente para empresas de pagamento e plataformas com milhões de usuários.
Esse debate também ajuda a explicar a aceleração regulatória no setor. Nesta manhã, o CriptoBR publicou que o Reino Unido reduziu uma exigência para stablecoins a 1%, sinal de que grandes jurisdições seguem ajustando regras para emissores e intermediários. Nos Estados Unidos, a pauta ganhou mais força depois do avanço do arcabouço federal para stablecoins, citado em reportagens sobre a Open USD.
Stablecoins viram infraestrutura de pagamento
Para o leitor brasileiro, o ponto prático é simples: stablecoins estão deixando de ser apenas um token usado em exchanges para se tornarem infraestrutura de pagamento, remessa, cartão e liquidação entre empresas. Quando gigantes de cartões e tecnologia entram no desenho econômico de uma stablecoin, o mercado passa a disputar não só usuários cripto, mas também empresas que movimentam dinheiro fora das blockchains.
A Open USD ainda precisa provar execução, governança, liquidez e confiança no lastro. Também há risco de fragmentação: quanto mais stablecoins corporativas surgem, maior a necessidade de interoperabilidade, transparência e regras claras para resgate. O alerta recente do BIS sobre stablecoins e dolarização mostra que reguladores globais estão atentos a esse crescimento.
Mesmo assim, o anúncio reforça uma mudança estrutural. A pergunta deixa de ser se stablecoins serão usadas por grandes empresas e passa a ser quem controla os trilhos, quem captura a receita das reservas e quais redes conseguirão combinar distribuição, liquidez e compliance sem perder velocidade.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





