A BNY ampliou sua parceria com a Circle e colocou o USDC dentro de sua plataforma de custódia digital para clientes institucionais. O banco permitirá guardar, transferir, emitir e resgatar USDC, reforçando a disputa por infraestrutura regulada de stablecoins em Wall Street.
A BNY, uma das maiores custodiante do mercado financeiro tradicional, anunciou nesta segunda-feira (29) a ampliação de sua parceria com a Circle para oferecer serviços institucionais ligados ao USDC. A stablecoin será o primeiro ativo desse tipo integrado à plataforma Digital Asset Custody do banco, com suporte para custódia, transferência, emissão e resgate.
Na prática, clientes institucionais poderão manter USDC em carteiras de custódia digital da BNY e instruir a conversão de dólares em novas unidades da stablecoin, além do caminho inverso: resgatar USDC por dólares. O movimento aproxima ainda mais os trilhos bancários tradicionais da liquidação on-chain, em um momento no qual stablecoins deixaram de ser apenas ferramenta de exchanges e passaram a disputar espaço em tesouraria, pagamentos e infraestrutura institucional.
O que muda para instituições
Segundo o comunicado da BNY, o lançamento amplia o papel do banco como custodiante primário das reservas do USDC. A companhia afirma que as novas capacidades criam uma ligação direta entre serviços fiduciários, custódia digital e fluxos em blockchain dentro de um único modelo operacional.
Essa integração é importante porque reduz uma das fricções centrais para instituições: a necessidade de alternar entre banco, custodiante cripto, emissor de stablecoin e infraestrutura de blockchain. Ao concentrar custódia e cash management em uma plataforma conhecida por clientes institucionais, a BNY tenta transformar o uso de stablecoins em algo mais próximo dos processos já usados por gestores, tesourarias e bancos.
O anúncio também mostra como bancos globais estão se movendo rapidamente para não perder a camada operacional das stablecoins. Como o CriptoBR mostrou na análise sobre o alerta do BIS sobre stablecoins e dolarização, reguladores seguem preocupados com o crescimento desses ativos, mas a demanda por infraestrutura institucional continua avançando.
USDC ganha trilho bancário mais direto
A Circle disse que o USDC será a primeira stablecoin disponível na nova oferta da BNY, destacando que o banco já tinha relação com a empresa desde 2022 no lado das reservas. Em comunicado, a Circle afirmou que a parceria dá aos clientes da BNY conectividade entre ativos on-chain e ativos tradicionais dentro de uma infraestrutura já usada pelo mercado financeiro.
Para a Circle, o timing é relevante. A emissora vem tentando posicionar o USDC como uma stablecoin regulada e adequada para uso corporativo, especialmente depois de ampliar integrações em pagamentos, redes de liquidação e produtos institucionais. Essa estratégia apareceu em movimentos recentes como a expansão do USDC em reservas e pagamentos, incluindo iniciativas citadas pelo CriptoBR em stablecoins nas finanças tradicionais e no avanço da Circle com a Arc, BlackRock e Apollo.
Do lado da BNY, o lançamento reforça a tese de que stablecoins não serão apenas produtos de empresas cripto. O banco afirma atender mais de 90% das empresas Fortune 100 e quase todos os 100 maiores bancos globais, além de supervisionar US$ 59,4 trilhões em ativos sob custódia e/ou administração. Esse alcance coloca o USDC diante de uma base institucional que normalmente não opera diretamente em infraestrutura cripto.
Por que isso importa para o mercado
A novidade não significa que toda instituição passará a usar USDC de imediato. O ponto central é outro: stablecoins estão ganhando interfaces bancárias mais familiares, com controles de custódia, governança e operação que investidores profissionais exigem antes de mover volume relevante.
Ao mesmo tempo, o avanço aumenta a pressão competitiva sobre emissores, bancos e plataformas de pagamento. Se stablecoins puderem ser emitidas e resgatadas dentro de bancos tradicionais, o mercado tende a disputar menos apenas liquidez em exchanges e mais a camada de integração com tesouraria corporativa, liquidação internacional e gestão de caixa.
A própria BNY sinalizou que pretende expandir o suporte a outros emissores de stablecoins e a novos fluxos de dinheiro digital ao longo do tempo. Esse detalhe importa porque o USDC pode ser apenas o primeiro passo de uma plataforma mais ampla, na qual diferentes formas de dinheiro tokenizado disputam espaço dentro da infraestrutura bancária.
Para o leitor, a leitura prática é simples: a adoção institucional de stablecoins está deixando de depender só de narrativas cripto. Ela começa a aparecer em produtos bancários concretos, com emissão, resgate e custódia conectados ao mesmo ambiente operacional usado por grandes clientes financeiros.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





