A Circle assinou acordos separados com Kakao Group e Toss Bank para estudar infraestrutura de pagamentos com stablecoins na Coreia do Sul. O movimento reforça a disputa por trilhos de liquidação 24/7 em um mercado onde bancos, fintechs e big techs tentam se posicionar antes de regras mais claras para ativos digitais.
A Circle ampliou sua ofensiva na Coreia do Sul com duas parcerias anunciadas nesta quinta-feira (23): uma com o Kakao Group e outra com o Toss Bank. A empresa por trás do USDC quer explorar infraestrutura de pagamentos baseada em blockchain no país, em um momento em que stablecoins deixaram de ser apenas ferramenta de corretora e passaram a disputar espaço em remessas, liquidação e serviços financeiros digitais.
Segundo o The Block, os memorandos de entendimento envolvem a avaliação de trilhos de pagamento com stablecoins e novas formas de conectar a infraestrutura da Circle ao ecossistema financeiro local. A pauta importa porque Kakao e Toss não são nomes pequenos: o primeiro controla serviços populares como KakaoTalk, Kakao Pay e KakaoBank, enquanto o segundo opera uma das principais plataformas financeiras digitais da Coreia.
A Circle comunicou o acordo com o Kakao em seu perfil oficial no X:
https://x.com/circle/status/2080093716266844289
USDC entra na corrida por pagamentos digitais
No acordo com o Toss e o Toss Bank, a discussão é mais direta sobre pagamentos, remessas e liquidação. O DigitalToday informou que as empresas vão revisar modelos com USDC, pagamentos programáveis e integração entre infraestrutura blockchain e redes tradicionais de moeda fiduciária, sempre dentro do marco regulatório aplicável.
Na prática, isso coloca o USDC em uma frente de uso que vai além da negociação em exchanges. Stablecoins podem reduzir a fricção de transferências internacionais e permitir liquidação contínua, mas também exigem controles de compliance, segurança, prevenção à lavagem de dinheiro e proteção ao usuário. O próprio Toss Bank destacou, segundo a publicação coreana, que esses pontos precisam estar estruturados para que pagamentos com stablecoins avancem em serviços financeiros.
O tema conversa com uma tendência já vista em outros mercados. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a plataforma de stablecoins da Visa para bancos, empresas tradicionais de pagamento vêm tratando tokens lastreados como infraestrutura de liquidação, não apenas como produto cripto. Também há pressão regulatória: o alerta do BIS sobre stablecoins e controles de capital mostra por que governos acompanham de perto esse avanço.
Coreia do Sul virou laboratório estratégico
A Coreia do Sul combina alta adoção digital, mercado financeiro sofisticado e forte interesse de investidores em cripto. Esse ambiente torna o país um campo importante para testar como stablecoins podem entrar em aplicativos de massa sem abandonar exigências regulatórias.
O acordo também reforça uma sequência de movimentos da Circle na região. Em abril, a companhia já havia fechado iniciativas com Upbit e Bithumb, duas das maiores exchanges sul-coreanas, para ampliar a adoção do USDC e estudar novas colaborações tecnológicas. Agora, a expansão chega a fintechs e plataformas de pagamento, uma camada potencialmente mais próxima do usuário comum.
Há ainda um componente local: empresas sul-coreanas avaliam moedas digitais vinculadas ao won, enquanto reguladores discutem quem poderá emitir e operar esse tipo de ativo. O CriptoBR já havia acompanhado casos de infraestrutura financeira on-chain no país, como os testes de remessas com Ripple na Coreia e a liquidação de títulos tokenizados. A parceria da Circle entra nessa mesma disputa por trilhos financeiros mais rápidos e programáveis.
O que muda para o mercado
Para o leitor brasileiro, o ponto central é que stablecoins continuam avançando pelo caminho institucional. A disputa não está apenas em qual token tem maior capitalização, mas em quem consegue se conectar a bancos, aplicativos de pagamento e redes de liquidação com escala real.
O The Block citou dados de seu painel indicando que o USDC tinha US$ 74,4 bilhões em oferta na quinta-feira, enquanto o USDT, da Tether, somava US$ 184,3 bilhões. A diferença mostra que a Circle ainda corre atrás da liderança em tamanho, mas a estratégia de acordos com bancos, fintechs e exchanges busca fortalecer o uso regulado do USDC em mercados-chave.
O impacto não deve ser imediato para usuários finais. Memorandos de entendimento costumam abrir testes, provas de conceito e discussões regulatórias antes de produtos comerciais. Ainda assim, a entrada de Kakao e Toss no radar da Circle indica que a próxima fase das stablecoins pode ser menos sobre trading e mais sobre infraestrutura invisível de pagamentos.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





