A FCA reduziu de 2% para 1% a exigência de capital operacional para emissores de stablecoins no Reino Unido. A mudança acompanha uma postura mais flexível do Banco da Inglaterra e aumenta a disputa regulatória com a União Europeia.
O Reino Unido reduziu parte das exigências prudenciais para empresas que emitem stablecoins, em mais um sinal de que Londres quer tornar sua regulação cripto menos pesada que a da União Europeia. A Financial Conduct Authority (FCA) baixou de 2% para 1% o requisito de capital ligado ao risco operacional para emissão de stablecoins, segundo documentos finais publicados pelo regulador.
A mudança importa porque stablecoins viraram uma das principais frentes de disputa entre governos, bancos e empresas cripto. Enquanto a UE avança com a MiCA, o Reino Unido tenta equilibrar proteção ao consumidor com competitividade para atrair emissores e infraestrutura de pagamentos digitais.
O que mudou na regra britânica
No pacote prudencial da FCA, o regulador afirma que fez “recalibrações direcionadas” para tornar o regime mais proporcional. A principal delas é a queda do capital operacional exigido para emissão de stablecoins, de 2% para 1% do valor relevante calculado pelas regras do setor.
Na prática, a redução pode aliviar o custo de capital de emissores que pretendem operar sob licença britânica. Isso não elimina obrigações de segregação de ativos, governança, resiliência operacional e proteção ao usuário, mas muda a conta econômica para quem quer lançar ou custodiar tokens lastreados em moeda fiduciária no país.
O movimento vem poucos dias depois de o Banco da Inglaterra recuar em uma proposta polêmica de limite individual para posse de stablecoins. A autoridade monetária havia discutido um teto de 20 mil libras por usuário, mas abandonou a ideia no desenho mais recente para stablecoins sistêmicas denominadas em libra.
Competição direta com MiCA
O timing coloca o Reino Unido em comparação direta com a União Europeia. A MiCA já obrigou emissores e exchanges a reverem suporte a stablecoins, e a pressão regulatória europeia tem afetado tanto tokens em dólar quanto alternativas em euro.
Como mostrou o CriptoBR na análise sobre o alerta do BIS para stablecoins e dolarização, bancos centrais enxergam esses tokens menos como “dinheiro neutro” e mais como instrumentos financeiros que podem concentrar risco cambial, liquidez e dependência de emissores privados.
Ao mesmo tempo, o apetite institucional continua crescendo. A integração do USDC à plataforma de custódia do BNY reforçou que bancos tradicionais já tratam stablecoins como infraestrutura potencial para liquidação, tesouraria e pagamentos.
Por que isso importa para o mercado
Para emissores, a regra britânica pode tornar Londres uma alternativa mais atraente caso o custo de operar na UE suba. Para exchanges e custodiante, o efeito tende a aparecer em novos pedidos de licença, produtos em libra e acordos com bancos locais.
Para usuários, a questão é menos imediata, mas relevante: regras mais leves podem acelerar a chegada de stablecoins reguladas, enquanto regras mais duras tendem a limitar a oferta a empresas com maior capital e estrutura jurídica.
O ponto de atenção é que flexibilidade regulatória também aumenta a responsabilidade de supervisão. Se o Reino Unido quiser competir com MiCA sem parecer permissivo demais, a FCA e o Banco da Inglaterra terão de mostrar que conseguem cobrar reservas, auditoria e resgate rápido sem travar a inovação.
O setor agora observa se a postura britânica vai atrair emissores globais ou apenas criar uma diferença regulatória temporária. Em stablecoins, a vantagem de custo só vira vantagem real se houver confiança de que o token pode ser resgatado, auditado e usado em escala.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





